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sábado, 18 de maio de 2024

SÓNIA SULTUANE - CHOREI OS HOMENS






 Chorei os homens,

mas nenhum, as minhas lágrimas viu,
nenhum as viu correr dentro de mim,
chorei os homens,
com lágrimas já tão cansadas, esperei...enfim...,
que algum as visse e as pudesse secar,
que algum as pudesse ouvir,
ouvir somente dizer que foi por amor,
que chorei lágrimas doídas


Sónia Sultuane
Moçambique


Biografia:

Nota: Amigos, só agora vi que embora continue em pausa, ainda saíram duas postagens dando ideia de que estava de volta. Não aconteceu, as postagens saíram porque estavam agendadas. Pensava regressar ao vosso convívio este mês mas uma virose, seguida de uma gastrite e uma infeção urinária não me têm dado descanso. Voltarei para em Junho, se entretanto recuperar a saúde. 





quarta-feira, 27 de outubro de 2021

MARIANA IANELLI



Para amanhã



 Faz tua casa um fragmento de alma,

 cobre o teu pensamento.
 Vai, que estás em tempo de colher-te,
 um minuto para ser teu.
 Interrompe tuas regatas desbravadas,
 saídas das marinas solitárias,
 e retribui para terra a demonstração das tuas patas.
 Que não há segunda vez,
 um homem se esgalha da marga ou desiste.
 Para terra dá teus domingos desagradáveis e os risíveis.
 Fica lasso, pétala urdida no sol e na água.
 Vai, capaz de crescer.


- Mariana Ianelli, em "Duas chagas". São Paulo: Iluminuras, 2001.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

MARIA FIRMINA DOS REIS


Confissão



Embalde, te juro, quisera fugir-te, 
Negar-te os extremos de ardente paixão: 
Embalde, quisera dizer-te: - não sinto 
Prender-me à existência profunda afeição.
Embalde! é loucura. Se penso um momento, 
Se juro ofendida meus ferros quebrar: 
Rebelde meu peito, mais ama querer-te, 
Meu peito mais ama de amor delirar.

E as longas vigílias, - e os negros fantasmas, 
Que os sonhos povoam, se intento dormir, 
Se ameigam aos encantos, que tu me despertas, 
Se posso a teu lado venturas fruir.

E as dores no peito dormentes se acalmam. 
E eu julgo teu riso credor de um favor: 
E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se, 
Rendida aos sublimes mistérios do amor.

Não digas, é crime - que amar-te não sei, 
Que fria te nego meus doces extremos... 
Eu amo adorar-te melhor do que a vida, 
melhor que a existência que tanto queremos.

Deixara eu de amar-te, quisera um momento, 
Que a vida eu deixara também de gozar! 
Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te, 

Sou louca... perdida, só sei te adorar.


- Maria Firmina dos Reis, em "Cantos à beira mar". São Luís do Maranhão, 1871, p. 79-80.



Biografia AQUI

domingo, 26 de setembro de 2021

MYRIAM FRAGA


Semeadura



O limite da luz
é o espaço do salto.

É a casa do sonho,
o caminho de volta,
extravio ou derrota.

O pássaro é este silêncio
cortando como faca.

É a bicada no ventre:
semeadura de mel
nos meus campos molhados.

Oh! eterno seja o passo
minha pele no teu aço,
ó pássaro, pássaro.

Senhor do sol me arrebata,
ó pássaro,
tuas garras como arado
revolvendo meus pedaços.

Meu corpo de sementeira
na raiz do teu abraço.

Um arco-íris de espigas
no meu seio, meu regaço
como um odre

na esperança de teu vinho,
meu canto no teu cansaço
ó pássaro, pássaro.




- Myriam Fraga, em "A lenda do pássaro que roubou o fogo". Salvador: Editora Macunaíma, 1983


Biografia AQUI

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

VIVIANE MOSÉ


Toda palavra 


Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
 mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.



- Viviane Mosé, em "Toda palavra".  Rio de Janeiro RJ: Editora Record, 2008.


Biografia AQUI

sexta-feira, 21 de maio de 2021

ODETE COSTA SEMEDO







Eu e a poesia



Eu e a poesia
A confissão
O prazer
O gosto de dizer
Sem reprimir
O prazer de dar
O que se quer
A viagem segura
Num mundo incerto
A magia do som
Da música, do ritmo
O prazer da viagem
A visão da natureza
Pura ou não
A Providência sempre
Ou nunca presente
Poesia amor
Construção

Fuga e reencontro



- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.



Odete Costa Semedo já é repetente. Para quem não conhece, AQUI  podem encontrar a sua biografia.

sábado, 13 de março de 2021

MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS







Construção tardia



Acordamos tarde para a tarefa
de juntar as partes da vida,
jogo de armar em mãos inábeis.

Demasiado próximos da seiva,
enxergamos pouco.
Quem disse que é tão simples
dividir a vida em frases?
(ó infância rasurada!)
Só tempos fases.

A vida invade o tempo
(e não o oposto)
e nos atordoa
com sua face leve,
sedução e jogo,

ó vida, vida,
construção tardia:
acordamos tarde nessa arquitetura.

Grande é a gula. Parcas as nascentes.
Mas a garganta molha-se de sede,
procriando espaços de viver.



- Maria da Conceição Paranhos, em "As esporas do tempo". Salvador BA: Fundação Casa de Jorge Amado/ COPENE, 1996


Biografia AQUI

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

SÓNIA SULTUANE



Penso despertar em mim belezas ocultas


Tenho em mim esta garra
que me transforma
nessas mulheres de vários karmas
mulher agreste, selvagem
mulher luz, mulher poente
mulher confusa, mulher vidente
fico desperta quando descubro
que já vivi em outros mundos
com belezas ocultas de deusa, peregrina, supérflua, feiticeira,
todas guardadas nas profundezas do meu sangue,
da minha alma velha, mas de menina ainda contente.

Biografia  AQUI

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

NARA RÚBIA RIBEIRO




SEM PELE
A alma de toda a gente tem cercanias.
A minha, não tem.
É um descampado.
Não tem telhado, não tem paredes.
Muitas vezes, nem chão.
E sinto no peito as encostas
de tudo o que sangra e corrói.
Também toda a beleza me visita sem licença
e a poesia de tudo me acontece.
Mas a beleza, não raro, ela fere.
As garras de um beija-flor podem ser mortais
a uma alma sem pele.
Então, por isso, às vezes me exaspero e grito
para que o meu peito,
em desabrigo,
não seja tão violado.
Mas quando me sai o protesto,
as minhas palavras também me sangram
e morro mais um tanto por dentro.
Já não quero a palavra que afugenta a dor.
Quero o silêncio que cicatriza a ferida
e que me prepara para a dor mais forte:
a própria Vida.

– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes” .

Biografia e vários poemas mais AQUI

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

ODETE COSTA SEMEDO



As minhas lágrimas



As lágrimas 
escapuliram 
esboçaram 
no chão do meu rosto
um fio de mágoa profunda 
queimando 
bem fundo

Nenhum grito...
nenhum gemido... 
palavra nenhuma
letra alguma
jamais traduziu 
tanto sofrer 
os olhos sentiram 
a minha gente viu
E eu?
E eu?


- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.


Biografia AQUI

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

DEBORAH BRENNAND






Você só diz



O que eu não quero ouvir.
Não fala de uma ilha
onde nasce um rio
que desagua céus.

Não lembra caminhos
indo, indo se esconderem
em matos e pedras.

Não ergue o facão do sol
e faz zunir centelhas
nas alamedas do estio.

Nem traz assombros
de ramagens na noite
pisando o carmim das flores.

Você só diz – Eu te amo.

Assim não dá, é pouco
muito pouco para se levar a vida.



- Deborah Brennand, em "Folhagens". Recife: Travessa dos Editores, 2002.


Biografia AQUI



sexta-feira, 16 de outubro de 2020

BRUNA BEBER



As avós e as tias



durante toda minha caminhada
pela bola que uns chamam
de terra e outros de água
ou como carinhosamente
já apelidaram um amigo
balofo no colégio
só consegui
tomar posse
de uma certeza
e por isso gostaria
de dividi-la passem
para os seus filhos:
não há
sequer 
um ser 
humano que caminhe
pela bola – há quem
a diga achatada –
que não tenha
não teve
ou nunca terá 
uma 
toalha 
bordada
é importante 
que seus filhos
passem pros deles
essa verdade
mas se não tiverem
filhos netos tudo bem
sempre terão toalhas
bordadas.



- Bruna Beber, no livro "Rua da PadariA". Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.


Biografia AQUI


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

CRISTIANE NEDER




A  PEDRA 
 
A pedra fala calada,
bruta como um palavrão mal criado,
faz rugas onde a chuva encosta
e desbota-se de exatidão
pelos ruídos por onde
penetra o pensamento humano através do vento.
A pedra não sabe receber o poeta,
o poeta é que a recebe na mão,
e de poeta em poeta
o mundo virou um pedregulho 
de sintomas novos.
Vamos dar analgésico
para as pedras aguentarem 
o peso dos homens quando forem pisadas,
pois todo caminho tem pedra
no meio da estrada,
e de pedra em pedra
nossa história está virando
um Muro das Lamentações.



Biografia AQUI

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

DEUSA d'ÁFRICA


 A VIDA QUE NÃO TIVE


Um abraço
Um apreço
Um vaso
Para jogar a semente e irrigá-la
E clientes para fornecer-lhes
A água vinda das minhas pupilas.

Um afecto
Como um insecto
Cujo pai ensina-o a voar.

Um punhal
Para encravar
Em minhas entranhas,
A liberdade, 
E livrar-me da colonização da vida.


Deusa d’África, in “A Voz das Minhas Entranhas”, página 48, edição Deusa d’África / Grupo Cultural Xitende / Ciedima, Lda., Maputo, 2014.


Biografia  AQUI

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

GLÓRIA DE SANT'ANNA


Poema Agreste

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Glória de Sant'Anna, in 'Poemas do Tempo Agreste'

Biografia   Aqui

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

FÁTIMA LANGA





MULHER


Procurei palavras bonitas
Palavras caras e raras
Palavras de dicionário
Palavras que só os doutores sabem dizer
Para falar de ti, mulher
E não encontrei

Perguntei ao vento ao fogo e ao mar
À terra, ao tempo e espreitei no ar
Buscando alguém,
alguma coisa
Que me dissesse o teu nome
Para eu falar de ti, mulher
E ninguém me respondeu

Então, vasculhei sentimentos e atitudes
E no fundo de cada um
Descobri as tuas pegadas
Por vezes longínquas,
Outras vezes ténues
Mas sempre presentes
numa caminhada perene, penosa

por fim encontrei-te.
Encontrei-te no rosto das crianças
que geraste e criaste
No amor que criaste com grãos de dor
Na esperança que semeaste
em pedaços de desespero
Em feridas que curaste
com lágrimas escondidas
Para não mostrar a face

Encontrei-te
nas bocas saciadas da família
Em pedaços de percurso
entre caminhões e fronteiras

 

Encontrei-te
também no sono reparador do teu lar
Que semeaste em cada viagem arriscada
A pé, de chapa ou de boleia
Entre insultos, violência e abusos
respondes com um sorriso

Encontrei-te nesse amor que só tu sabes cultivar
Nos ombros que emprestas a quem precisa de chorar
Encontrei-te nesse amálgama de emoções
Que vives em cada dia
E que transformas num olhar

Mas vi também pegadas recentes
Nas salas de trabalho de políticos e cientistas
Reconheci-te com microfones falando para multidões
Descobri que já começaste a consolidar espaços novos
Nas tecnologias, nas decisões e nos espaços nobres
Nas empresas que algumas já te pertencem
Até condenas criminosos em salas de audiência.

Num momento de pausa

Encontrei-te sozinha com o olhar iluminado
E perguntei-te o teu nome
Respondeste: Sou mulher



Biografia   AQUI


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

ASTRID CABRAL



Modo de amar

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.




Biografia AQUI

sábado, 22 de agosto de 2020

ANILDA LEÃO




À procura da infância




Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes 
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.




- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.



Biografia e outros poemas AQUI

terça-feira, 28 de julho de 2020

ANA MARIA MARQUES




Barcos de papel


Os poemas em geral são feitos de palavras
no papel
seria melhor se fossem de pano
porque poderiam tomar chuva
ou de madeira
porque sustentariam uma casa
mas em geral são feitos de palavras
no papel
e por isso servem para poucas coisas
entre as quais não se encontra
tomar chuva
ou sustentar uma casa.

Dobrados sobre si mesmos,
lançam-se no mundo
com a coragem suicida
dos barcos de papel.



- Ana Martins Marques, em "A vida submarina". Belo Horizonte: Scriptum, 200



Biografia AQUI

sábado, 18 de julho de 2020

LARA DE LEMOS


Cantilena nordestina

Um dois

canga no lombo
carga de boi

Três quatro

quatro meninos
no quadro do quarto.

Cinco seis

na cova a miséria
cem anjos fez

Sete oito

nem pão nem farinha
café sem biscoito

Oito nove

nem verde nem planta
a chuva não chove.

Nove dez

ninguém se incomoda
pobre tu és.


- Lara de Lemos, em "Palavravara". Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986, p. 96.


Biografia AQUI