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sábado, 19 de junho de 2021

RACHEL DE QUEIROZ



Telha de Vidro


Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha...
tão velha...
quem fez aquela casa foi seu bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia...

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa...
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia...
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


- Rachel de Queiroz, in "Mandacaru".


Biografia AQUI



Por causa dos olhos estou a restringir ao máximo a presença no computador. Por isso as postagens serão bem mais espaçadas.

domingo, 6 de junho de 2021

AMÉLIA DA LOMBA OU AMÉLIA DALOMBA





 Mãos

Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero



biografia AQUI

quarta-feira, 2 de junho de 2021

MARIA DE FÁTIMA (CHÓ DO GURI)



 Batam palmas

Batam palmas

Sou indigente vagabundo

Quero brindar-vos com verdades d'alma
Expulsar as serpentes que me atormentam

Reunir-me com os dementes
Pulular nas lixeiras da mente
Declamar poemas

Com palavras minhas

Ainda que ridicularizadas
Não quero que as abortem
São minhas e as defendo
Confesso

Batam palmas!

Batam palmas por favor

Vou declamar
Apalpar-vos a alma

Ver-vos no meu rnicrofilme
A exorcizar a vossa poesia
Que sairá aos soluços

Batam palmas!

Batam palmas ... palmas

Preciso e quero arrotar

Toda a poesia vadia

Impregnada de todo o meu eu

Batam palmas! Batam palmas! Batam

Maria de Fátima  (Chó do Guri)

Mais uma autora que se repete e cuja biografia podem ver AQUI

quarta-feira, 26 de maio de 2021

MARIA CELESTINA FERNANDES





 CANTO AO AMOR


Haverá alguém
que nunca sentiu o calor do amor,
alguém que não tenha amado
uma vez que seja?

 

Amar é viver
e quem não descobriu o amor,
ainda que não creia
está encurralado entre as trevas,
— dissociação, por isso,
da própria vida...



Maria Celestina Fernandes



Biografia AQUI


segunda-feira, 24 de maio de 2021

LYA LUFT



Aviso

Se me quiserem amar, terá de ser agora:
depois, estarei cansada.
Minha vida
foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e fixo:
assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiserem amar, terá de ser hoje:
amanhã, estarei mudada.

- Lya Luft, em "Mulher no palco", 1984.

Lya Luft  é  repetente neste espaço AQUI podem ler a sua biografia

sexta-feira, 21 de maio de 2021

ODETE COSTA SEMEDO







Eu e a poesia



Eu e a poesia
A confissão
O prazer
O gosto de dizer
Sem reprimir
O prazer de dar
O que se quer
A viagem segura
Num mundo incerto
A magia do som
Da música, do ritmo
O prazer da viagem
A visão da natureza
Pura ou não
A Providência sempre
Ou nunca presente
Poesia amor
Construção

Fuga e reencontro



- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.



Odete Costa Semedo já é repetente. Para quem não conhece, AQUI  podem encontrar a sua biografia.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONCEIÇÃO EVARISTO



Do fogo que em mim arde


Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.

Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.



- Conceição Evaristo, em "Poemas da recordação e outros movimentos". Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Biografia da autora AQUI

quarta-feira, 12 de maio de 2021

CLARICE LISPECTOR



2. SONHE

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.

Clarice Lispector é por demais reconhecida, e penso que já todos conhecem bem. No entanto em 2009 publiquei neste espaço uma pequena biografia.  AQUI

domingo, 9 de maio de 2021

PORQUE HOJE É DIA DA MÃE EM GRANDE PARTE DO MUNDO...

 Para todas as mães que por aqui passem, mesmo para as que já festejaram o domingo passado, porque dia das mães são todos os dias do Universo 



Vigília das mães 

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.
Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.
Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.
Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.
Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

Cecília Meireles

sexta-feira, 7 de maio de 2021

FÊ BLUE BIRD

                                                                                

GOSTO ...

...DE COISAS SIMPLES


                                                                             Gosto...

das coisas simples. Limpas, puras.
Coisas sem adornos. Livres.

Gosto...
dos espaços abertos. Planícies, searas.
Espaços sem donos. Mares.

Gosto...
dos cheiros frescos. Lavados, brancos.
Cheiros sem cor. Transparentes.

Gosto...
das músicas suaves.  Envolventes, cheias.
Músicas sem brilho. Autênticas.

Gosto...
dos gestos leves. Íntimos, únicos.
Gestos sem esforço. Nossos.

Gosto...
dos sabores antigos. Lareiras, infâncias.
Sabores sem pecado. Nostalgias.

Gosto ...
das pessoas gentis . Despojadas, amigas.
Pessoas sem embrulho. Soltas.

Gosto...
dos toques azuis. Borboletas, céus.
Toques sem tempo. Voos.


Fê blue bird



A Fé está na Internet. Podem conhecê-la   AQUI

terça-feira, 4 de maio de 2021

E PORQUE HOJE É O DIA DAS MÃES



Isabel de Oliveira   -  (fado)   o xaile de minha  mãe,,  

Para todas as mães que por aqui passem, um dos fados mais bonitos que conheço

sábado, 1 de maio de 2021

1º DE MAIO - DIA DO TRABALHADOR

"Operários"  Tarsila do Amaral  1933

 

 HOJE COMO ONTEM

Hoje como ontem companheiro
queremos encontrar a verdade, 
a saída para esta angústia
que grassa
as nossas feridas ainda mal cicatrizadas.
Hoje como ontem companheiro
os homens não são homens.
São brancos, pretos, amarelos
 ricos, pobres, remediados ou mendigos,
doutores ou ignorantes 
 exploradores ou explorados
 índios e ciganos
polícias ou ladrões
mas não são homens...
Hoje como ontem companheiro
temos que encontrar o caminho
que há lobos esfaimados à nossa volta,
esperando implacáveis o momento, de nos destruir.
Mas hoje como ontem companheiro
as nossas mãos unidas hão de gritar
a nossa força.
Ainda que o medo sele os nossos lábios
ainda que a raiva cegue os nossos olhos
ainda que nos queiram algemar o pensamento
as nossas mãos unidas
por um mundo melhor
ninguém há de separar.

Elvira Carvalho

quinta-feira, 29 de abril de 2021

E HOJE É DIA DE FESTA.


 Este blogue está hoje em festa. Faz 13 anos que deseja festejar com todos os que o costumam visitar.   

E é para vós o meu e o seu  agradecimento pela vossa companhia ao longo destes anos.  Porque vocês são a razão da sua existência. Muito obrigado !

E se chegar depois da festa acabar ali ao lado o Sexta seu irmão mais velho, faz  14 anos. E também está em festa.







segunda-feira, 26 de abril de 2021

25 DE ABRIL - LIBERDADE




LIBERDADE


Ontem

Olhavas e fingias que não vias.

Os órfãos e viúvas de guerras inglórias

O desespero dos emigrantes clandestinos

As terras abandonadas ao sabor da fome

A força-sacrifício dos ideais feitos homens

Encerrados e torturados nas prisões do meu país.


Acordaste numa manhã de Abril

E ficaste arrepiado…


Porque nas nossas mãos 

O sangue era cravo rubro.

Nas nossas gargantas

O medo era um hino à Liberdade.

Os nossos braços,

Enlaçavam-se na esperança do momento.

Acordaste... 

E como quem muda de camisa

Puseste-te ao nosso lado.


Era o tempo

De fingires ser democrata.


Os anos passaram

Com a liberdade por companheira

Entre avanços e recuos, 

Fomos fazendo a nossa história

E tu

Como joio insidioso abafando o trigo

Ias minando a caminhada.

Encerrando escolas

Fechando fábricas

Cortando subsídios

Empurrando-nos para a emigração

Aprisionando os nossos sonhos

O desespero e desencanto

Fomentando a descrença

Entre o Povo



Agora largaste a máscara

E ameaças voltar.

Mas hoje

O povo conhece o sabor 

Da Liberdade.

Distingue-lhe o sal das lágrimas, 

O odor do sangue derramado

Daqueles que por ela

Deram a vida.


E não se deixa enganar! 


Elvira Carvalho

quarta-feira, 21 de abril de 2021

JÚLIA CORTINES







Por toda a parte

Interrogaste a vida: interrogaste o arcano,
Misterioso sentir do coração humano;
A mesta palidez serena do luar;
O murmúrio plangente e soturno do mar;
O réptil, que rasteja; o pássaro, que voa;
A fera, cujo berro as solidões atroa;
A desenfreada fúria insana do tufão;
A planta a se estorcer numa atroz convulsão.
Interrogaste, enfim, tudo o que existe, tudo:
O que chora, o que vibra, o que é imoto, o que é mudo.
Do astro eterno baixaste à transitória flor.
Que encontraste, afinal?
– A dor! a dor! a dor!


- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Biografia AQUI

terça-feira, 20 de abril de 2021

VITTORIA COLLONA




ESCREVO SÓ PARA ALIVIAR OS DANOS ...

Só escrevo para aliviar os estragos
que a luz do mundo costuma enviar ao peito
e não para iluminar meu lindo sol
ao espírito límpido e à desapropriação honrosa.

Razão certa de arrependimento me leva,
a ferir que sua glória eu diminua;
com outra pena e palavras mais sábias
é necessário arrancar seu nome da morte.

A fé pura, o ardor, a dor intensa,
tudo me desculpam, que o grande choro
é tal, que o tempo ou a razão o retarda.

Lágrimas amargas, nenhuma canção doce,
suspiros profundos que nenhuma voz serena,
não mais estilo de dor, presumo.

Rimas , 1538. Tradução de María Cinta Montagut.


BIOGRAFIA   AQUI

domingo, 18 de abril de 2021

LOU ALBERGARIA



Ser

Estranho
O ser
Que me estranha
As entranhas
O querer ser amado
Enlaçado
Envolto abraço
Assanha
Aranha carne, pele
Seus lábios
A manjedoura
Que me espera
Expele
O gérmen do amor
Que te guardo
Intocado
Nesse tempo etéreo


- Lou Albergaria, no livro "O cogumelo que nasce na bosta da vaca profana". Porto Alegre RS: Editora Vidráguas, 2011.


Biografia e outros poemas AQUI

quinta-feira, 15 de abril de 2021

HILDA HILST




De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão,
A mesma ilusão

Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade

Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n’água.

– Hilda Hilst, no livro “Sobre a tua grande face”. São Paulo: Massao Ohno, 1986.

Biografia  AQUI



sábado, 10 de abril de 2021

LÍDIA BORGES

                                      Richard Emil Miller
                           Pintor norte americano (1875-1943)



PORTA DE ÁGUA

 Um espelho é uma porta de água.

A parede onde se encosta

está frequentemente perto da ficção.

Podes então mergulhar, 

encetar as viagens  que quiseres.

 

Pode acontecer no regresso

depares com a solidez da parede

atrás da qual o espelho te espera.

Não para te revelar o mistério

das coisas indecifráveis que buscavas

mas o engano das coisas decifráveis

de que fugias.

 

É por aí que às vezes se perde o coração.

 

Lídia Borges


AQUI,  podem encontrar uma pequena biografia da poeta. Mas Lídia Borges, também está  na blogosfera.

AQUI, poderão encontrar o seu blogue.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

YEDA PRATES BERNIS



Oferenda



Se eu pudesse fazer um poema
meigo como a brisa das manhãs,
doce como pássaro submisso,
lírico como a flor que desabrocha,

se eu pudesse fazer um poema
onde as palavras perdessem seu sentido
e se transformassem em etéreas formas
em música suave
ou em volátil perfume
que inebriasse,

levar-te-ia, amor,
em oferenda,
este mágico poema


- Yeda Prates Bernis, no livro "Entre o rosa e o azul". Rio de Janeiro: Editora O Cruzeiro, 1967.



Biografia AQUI