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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

MYRIAM FRAGA


Semeadura



O limite da luz
é o espaço do salto.

É a casa do sonho,
o caminho de volta,
extravio ou derrota.

O pássaro é este silêncio
cortando como faca.

É a bicada no ventre:
semeadura de mel
nos meus campos molhados.

Oh! eterno seja o passo
minha pele no teu aço,
ó pássaro, pássaro.

Senhor do sol me arrebata,
ó pássaro,
tuas garras como arado
revolvendo meus pedaços.

Meu corpo de sementeira
na raiz do teu abraço.

Um arco-íris de espigas
no meu seio, meu regaço
como um odre

na esperança de teu vinho,
meu canto no teu cansaço
ó pássaro, pássaro.




- Myriam Fraga, em "A lenda do pássaro que roubou o fogo". Salvador: Editora Macunaíma, 1983


Biografia AQUI

domingo, 19 de setembro de 2021

CLAUDIA MEYER


 A solidão se respira à beira do vazio,

o abandono floresce à margem da trilha clandestina.
Sem paz, gozo, sossego ou sonho vão,
mas sim o frio que brota na clave de sol em meu universo,
o frio que agride esse corte da cabeça aos pés.

A vida desliza em minha caverna de incertezas.
A respiração anseia por noites neófitas e por voltar a sonhar.
A margem não percebe quando a dor é uma órbita.
Não importa a queda quando o fundo é ficção,
quando em desgosto se encontra todo o prazenteiro abismo.


Biografia AQUI

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

AMÉLIA VEIGA

 

África breve
                                                                      a Alice

África breve,
Quebrar de onda,
Sussurro de vento,
Estrela cadente,
Roçar de asa,
Mágico momento
Na eternidade do meu tempo,
Chão e casa ...
Leite e mel,
A terra prometida,
Espaço doce-amargo
No universo vazio
Da minha vida...

Apodreceram as sementes
Do amor que plantei
Na raiva lavrada do teu ventre...
Não era o lugar e nem a estação
Para a colheita apetecida ...
Era o trágico momento
Da sangrenta vitória
Do ódio sobre a vida,
Da dramática contradição
De ser e não ser da tua gente
E da renúncia assumida
Nas marés da História...

África breve,
Redimida,
Transcendida
Nas lágrimas da memória...

 


biografia AQUI 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

VIVIANE MOSÉ


Toda palavra 


Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
 mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.



- Viviane Mosé, em "Toda palavra".  Rio de Janeiro RJ: Editora Record, 2008.


Biografia AQUI

domingo, 5 de setembro de 2021

NADIA ANJUMAN

 

HISTÓRIAS TRÁGICAS

Oh histórias trágicas
Encontraram uma morada em nossos corações.
Esses olhos tristes, essas bochechas fundas e amarelas
São as marcas sombrias de tua presença
Oh galhos da dor
Cem primaveras e outonos indo e vindo
Brotos murchos com corações dilacerados
Cem bloqueios e cem caravanas passam
O Faraó morre e a história de Nimrod termina
Ainda que estejas jovem e fresco
Recém saído do útero do jardim

Oh miséria ardente
Deixe a expansão de nossos corações
Não são as únicas coisas pelas quais vale a pena queimar
Por uma única vez, passe na casa de outro

Oh histórias trágicas
Sua companhia nos oprime
Se não buscam uma nova casa, devem ter cuidado
Amanhã vamos deixar as tristes ruínas da vida
E vocês ficarão miseráveis e descobertas
No limbo do tempo
Sem qualquer morada


Nádia Anjuman uma promissora poeta afegã, foi assassinada pelo seu marido aos 25 anos de idade, apenas por querer ir visitar a irmã, contra a vontade dele.

Biografia AQUI

terça-feira, 31 de agosto de 2021

MARIA HELENA BOTA GUERREIRO




DO MEU CANCIONEIRO


Ó meu barquinho veleiro
Onde levas meu sonhar?
Amor é mar traiçoeiro
E eu tenho medo do mar!

Eu julguei ver nos teus olhos
Um lago de mansas águas.
Mas foram um mar de abrolhos
Onde afoguei minhas mágoas.

Cansada, mas não vencida
Apesar de há muito andar
Sozinha no mar da vida,
contra a maré a remar!

Porque será que és medonho,
Mar, se em ti ruge a procela?
Tempestades tem a vida,
e ninguém tem medo dela.

Mar, apesar do perigo
Que nos mata  quando queres,
vale mais lutar contigo
Que aturar certas mulheres!


Maria Helena Bota Guerreiro


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

IGNEZ SABINO PINHO MAIA



Flores murchas

          (à Mariana de Almeida)

Como as flores que vivem um só dia
Ao sopro do calor da luz das salas
Frágeis desbotam as robustas galas
Perdendo bela cor que as revestia...

Assim exausta aos poucos cessa a vida
Tudo cede ao poder do permanente
Tufão, destruidor que, de repente,
Prostra a seiva do sangue amortecida.

Pois tudo que nasceu há de render-se
A essa lei fatal intransigente
Que destrói e corrompe consciente

A vida, o ar e a flor que, ao desfazer-se,
Pendendo sobre a haste agonizante,
Bem viu que a vida dura um breve instante.



- Ignez Sabino, em "Rosas pálidas: poesias". 1886.


Biografia AQUI

domingo, 15 de agosto de 2021

ADALCINDA MAGNO CAMARÃO LUXARDO


Espaço-tempo
Quero-te mesmo, amor, na ausência ou na presença,
com rumores de sombra, alarde ou desafios.
―Dormir num chão de luar à sombra de roseiras
ou sob os pirisais na baixada dos rios...

Assim te amo e te sei amando dia-a-dia,
acordada ou dormindo o germinal segredo.
E te abraço sem ter teu corpo ao meu, beijando
a saudade sem ser de quem se tem sem medo.

Amo-te mesmo, amor, no madrigal do tempo,
derrubando androceus e gineceus se amando
nas pálpebras do estio que o sono não acorda.

No teu dorso eu descanso a caminhada enorme
que fiz pra te encontrar ― lábios ardendo em busca
da tua noite azul onde minh'alma dorme.

Amo-te mesmo, amor. Se me vens ou te vais.
Sinto-te à flor da pele e à superfície da água
que dessedenta o bem que nos lava o mal.

Amo-te e não sei quem és ― teu nome nem origem.
Só sei que és homem são e me sabes mulher.
Que beleza este amor sem pranto nem vertigem,
sem princípio nem fim, nem dimensão sequer!


- Adalcinda Camarão, em "Antologia Poética". Belém: CEJUP, 1995.


Biografia AQUI

terça-feira, 3 de agosto de 2021

EULÁLIA MARIA RADTKE



As elegias

(1)

É meio dia em minha
vida,
meu sonho
meu sol,
minha dança alucinada
no horto.

Para quem fui,
gotas ficaram pendentes
nas espigas.
Para quem sou,
canto humilde e ave
partida.

É meio dia em minha
vida,
este relógio  de hastes
singulares e plurais
ceifando o tempo,
trazendo à luz
banquetes fartos e limpos
- irreais




- Eulália Maria Radtke, em "O sermão das sete palavras". Florianópolis SC: FCC Edições; Brasília: Thesaurus, 1985.

Biografia AQUI

postagem programada

quinta-feira, 22 de julho de 2021

LIZETE SITOE



Globalização


Já não basta o sangue nosso derramado?
Sou a voz que clama no deserto,
Libertem o meu povo.
Não queremos as asas que nos cortaram,
Nem o limbo que nos trouxeram;

Testa por testa se quiserem,
Deixem-nos curvados aos nossos ancestrais,
Dançando Mapico,
Saboreando a deliciosa Nyangana;

Mesmo sem as asas que nos cortaram,
Com o limbo que nos trouxeram;
Depois chamam-nos pretos,
E esquecem que somos pretos, sim.
Somos pretos.

Pretos da cor do carvão,
Do carvão da nossa terra,
Terra rica de cultura;
Somos pretos.

Pretos da cor do povo,
Povo preto da minha terra,
Terra rica de cultura;

Sou a voz que clama no deserto,
Libertem o meu povo;
Não nos matem com o samba e o bacalhau...
Não nos corrompem com as vossas vestes. Pobre capulana.
Já não basta o sangue nosso derramado?
Agora a moda, o som, o paladar?




Biografia

Lizete António Sitoe, nasceu na capital de Moçambique, cidade de Maputo, antiga Lourenço Marques aos 26 de janeiro de 1998. É estudante de técnico aduaneiro, poetisa, declamadora, amante da psicologia, professora nas escolas dominicais da igreja evangélica assembleia de Deus, onde tornou-se Cristã e foi baptizada.


Escrevia poemas desde a sua infância e começou a declamar no ano 2015 especialmente para a sua Mãe, em seguida na sua instituição e com o tempo foi se expondo nos saraus de poesia, nas Rádio e tv's e foi vencedora em vários concursos de poesia na sua instituição. Em 2016 participou em certos eventos de moda, como estátua humana e em 2017 tornou-se membro da associação Nkaringana Arte e coordenadora de eventos na associação Fénix e iniciou um movimento "pequeninos de Jesus " em seu centro dominical.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

CELINA SHEILA MACOME




Amo um ser que não existe


Viajei num mundo imaginário
Encantei-me aos olhos do poeta
Procurei um lugar que não existe
Mergulhei no mar, ao encontro da poesia

Escrevi um poema entre as nuvens
Entre versos, beijei o poeta
No luar, fizemos tercetos
Andei atrás, de uma carta que não existia

Sonhei, num barco de palavras poéticas
Lancei-me no mar, ao encontro do meu ser
Escrevi um romance , nos olhos de um poeta

Celina Sheila

 AQUI  podem conhecer melhor a autora

sábado, 19 de junho de 2021

RACHEL DE QUEIROZ



Telha de Vidro


Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha...
tão velha...
quem fez aquela casa foi seu bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia...

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa...
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia...
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


- Rachel de Queiroz, in "Mandacaru".


Biografia AQUI



Por causa dos olhos estou a restringir ao máximo a presença no computador. Por isso as postagens serão bem mais espaçadas.

domingo, 6 de junho de 2021

AMÉLIA DA LOMBA OU AMÉLIA DALOMBA





 Mãos

Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero



biografia AQUI

quarta-feira, 2 de junho de 2021

MARIA DE FÁTIMA (CHÓ DO GURI)



 Batam palmas

Batam palmas

Sou indigente vagabundo

Quero brindar-vos com verdades d'alma
Expulsar as serpentes que me atormentam

Reunir-me com os dementes
Pulular nas lixeiras da mente
Declamar poemas

Com palavras minhas

Ainda que ridicularizadas
Não quero que as abortem
São minhas e as defendo
Confesso

Batam palmas!

Batam palmas por favor

Vou declamar
Apalpar-vos a alma

Ver-vos no meu rnicrofilme
A exorcizar a vossa poesia
Que sairá aos soluços

Batam palmas!

Batam palmas ... palmas

Preciso e quero arrotar

Toda a poesia vadia

Impregnada de todo o meu eu

Batam palmas! Batam palmas! Batam

Maria de Fátima  (Chó do Guri)

Mais uma autora que se repete e cuja biografia podem ver AQUI

quarta-feira, 26 de maio de 2021

MARIA CELESTINA FERNANDES





 CANTO AO AMOR


Haverá alguém
que nunca sentiu o calor do amor,
alguém que não tenha amado
uma vez que seja?

 

Amar é viver
e quem não descobriu o amor,
ainda que não creia
está encurralado entre as trevas,
— dissociação, por isso,
da própria vida...



Maria Celestina Fernandes



Biografia AQUI


segunda-feira, 24 de maio de 2021

LYA LUFT



Aviso

Se me quiserem amar, terá de ser agora:
depois, estarei cansada.
Minha vida
foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e fixo:
assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiserem amar, terá de ser hoje:
amanhã, estarei mudada.

- Lya Luft, em "Mulher no palco", 1984.

Lya Luft  é  repetente neste espaço AQUI podem ler a sua biografia

sexta-feira, 21 de maio de 2021

ODETE COSTA SEMEDO







Eu e a poesia



Eu e a poesia
A confissão
O prazer
O gosto de dizer
Sem reprimir
O prazer de dar
O que se quer
A viagem segura
Num mundo incerto
A magia do som
Da música, do ritmo
O prazer da viagem
A visão da natureza
Pura ou não
A Providência sempre
Ou nunca presente
Poesia amor
Construção

Fuga e reencontro



- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.



Odete Costa Semedo já é repetente. Para quem não conhece, AQUI  podem encontrar a sua biografia.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONCEIÇÃO EVARISTO



Do fogo que em mim arde


Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.

Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.



- Conceição Evaristo, em "Poemas da recordação e outros movimentos". Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Biografia da autora AQUI

quarta-feira, 12 de maio de 2021

CLARICE LISPECTOR



2. SONHE

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.

Clarice Lispector é por demais reconhecida, e penso que já todos conhecem bem. No entanto em 2009 publiquei neste espaço uma pequena biografia.  AQUI