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domingo, 15 de maio de 2022

GRAÇA PIRES



 Eu te baptizo em nome do mar



Eu te baptizo em nome do mar,

disse minha mãe com barcos na voz.

E as ondas enlearam nas águas o meu nome,

abrindo nas fendas do corpo um impulso

salgado que me brandiu o sangue.

Sei agora que há âncoras afogadas

nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
   

Graça Pires não necessita apresentação, já faz parte das poetas que por aqui passam e a sua biografia já foi publicada anteriormente

terça-feira, 10 de maio de 2022

ADÉLIA PRADO

 


Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado


Adélia Prado já por aqui passou outras vezes, a sua biografia já foi publicada numa anterior passagem

domingo, 8 de maio de 2022

PORQUE HOJE É O DIA DAS MÃES EM GRANDE PARTE DO MUNDO


 DE MÃE

O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe,
mulher de pôr reparo nas coisas,
e de assuntar a vida.

A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe,
mulher prenhe de dizeres,
fecundados na boca do mundo.

Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.

Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.

Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Conceição Evaristo já faz parte das poetas desta casa e a sua biografia já foi publicada em post anterior.

Para todas as mães que por aqui passarem um feliz dia.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

LYA LUFT



Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.

Lya Luft

Esta é uma poeta que já por aqui passou outras vezes e daí que a sua biografia já saiu numa dessas passagens

terça-feira, 3 de maio de 2022

DIA DAS MÃES - CORA CORALINA - MÃE


MÃE

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições…
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.”


Cora Coralina



Para todas as mulheres que por aqui passem um feliz dia da mãe.


sexta-feira, 29 de abril de 2022

29 DE ABRIL DE 2008 - 14º ANIVERSÁRIO DE A MULHER E A POESIA

                                                 









MULHERES À BEIRA MAR



Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente 
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, 
feliz de ser tão verde.





Foi com este poema de Sophia de Mello Breyner Andresen que este blogue nasceu faz hoje 14 anos.  A festa está aí .  Com um enorme obrigado para vós.




Obrigado Noname

segunda-feira, 25 de abril de 2022

25 DE ABRIL - DIA DA LIBERDADE - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



25 de Abril

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

E livres habitamos a substância do tempo

Onde emergimos da noite e do silêncio.


Sophia de Mello Breyner  Andresen



REVOLUÇÃO

 


Como casa limpa

Como chão varrido

Como porta aberta

 


Como tempo novo

Como puro início

Sem mancha nem vício

 

Como a voz do mar

Interior de um povo

 

Como página em branco

Onde o poema emerge

 

Como arquitectura

Do homem que ergue

Sua habitação

 

27 de Abril de 1974



Sophia de Mello Breyner  Andresen

segunda-feira, 18 de abril de 2022

EMILY DICKINSON


Para fazer uma campina


Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.

Emily Dickinson




Biografia AQUI

domingo, 17 de abril de 2022

P0ÁSCOA FELIZ

 



A todos os amigos/as que por aqui costumam passar, desejo-vos uma Páscoa com muita Saúde, Paz e Amor.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

HILDA HIST


 Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hist


Hilda Hist, já é habitual nesta casa pelo que a sua biografia já foi publicada num post anterior

domingo, 3 de abril de 2022

RUPI KAUR

 Não quero ter você


não quero ter você

para preencher minhas partes
vazias
quero ser plena sozinha
quero ser tão completa
que poderia iluminar a cidade
e só aí
quero ter você
porque nós dois juntos
botamos fogo em tudo


Rupi Kaur



Biografia AQUI

sexta-feira, 1 de abril de 2022

JOSEFINA ÁLVARES DE AZEVEDO

 

Ao rugido medonho da tormenta

Que a alma nos esmaga, nos trucida,

Não pensem que maldigo a triste vida

Nem o sopro de Deus que ora me alenta

Nem um momento só sou esquecida

De quem criou o mundo e aviventa

A flor do prado, a fera mais cruenta,

A tudo, enfim, que tem ou não tem vida

É doce nas agruras da existência

Lembrarmos a divina onipotência,

Erguermos para o céu o coração!

Naquele terno enlevo de fé pura

É sempre mui feliz a criatura

Que forças vai buscar no coração.

Josefina Álvares de Azevedo


Biografia, AQUI

quarta-feira, 23 de março de 2022

PORQUE HOJE É DIA DA POESIA , E A PRIMAVERA CHEGOU ONTEM...

 

Primavera

É Primavera agora, meu Amor!

O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha

O coração aberto, todo em flor!


Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor

Da vida… não há bem que nos não venha

Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!

Não há bem que não possa ser melhor!


Também despi meu triste burel pardo,

E agora cheiro a rosmaninho e a nardo

E ando agora tonta, à tua espera…


Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos…

Parecem um rosal! Vem desprendê-los!

Meu Amor, meu Amor, é Primavera!…

Florbela Espanca

sábado, 19 de março de 2022

LANÇAMENTO DO MEU LIVRO RENASCER

 













 
Obrigado JOAQUIN DUARTE DE SILVA por me ter ajudado a concretizar mais um sonho. E pela belíssima capa que toda a gente elogia. A minha eterna gratidão.

quinta-feira, 17 de março de 2022

terça-feira, 8 de março de 2022

DIA 8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 



PARA TI, MULHER

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com uma vida de Amor,

O Respeito, a Igualdade de direitos

A Liberdade

E a dignidade de seres Mulher.

E és violada, espancada, vilipendiada.

É tua vida, rosa sem perfume

Espinhosa na profissão e no lar.

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com um mundo de Paz

E vês teu mundo ruir com uma guerra

Que não quiseste, nem entendes,

Mas te obriga a fugir do teu lar destruído

Para pores os filhos a salvo

Deixando para trás o marido que luta

Sem saberes se voltarão a ver-se.

 

Para ti, Mulher

Que sonhas com um mundo melhor

Onde o alimento não falte na mesa

Mas sobrevives à fome

E seguras no peito esquálido

O corpo do teu filho moribundo

Porque nem o teu amor, nem a tua dor

Lhe alimentaram o corpo faminto.

 

Para ti, Mulher

Filha, irmã, esposa, mãe, viúva

Que tantas vezes carregaste no ventre

Com alegria, o Milagre da Vida

Sofrendo todas as dores com um sorriso.

E hoje sobrevives na solidão.

Porque o marido, a morte o levou

E os filhos se perderam, no mar da emigração.

  

Elvira Carvalho


Neste dia, que se diz ser da Mulher,  a minha homenagem a todas estas Mulheres, que carregam dia a dia, a morte dentro do peito. 

quarta-feira, 2 de março de 2022

PAIRAM NO AR FUMOS DE TRAGÉDIA


 Pairam no ar fumos de tragédia

Pairam no ar fumos de tragédia
Na liberdade e dignidade
De um povo.
Cerceada pela força das armas
E pelos sonhos de um visionário.
Sonhos que transformam
Em pesadelo.
A vida desse povo, antes livre.
Vidas em fuga, temerosas
Da guerra.
Almas incrédulas, mutiladas
Ou ceifadas como searas em flor
Que nunca darão fruto.
Elvira Carvalho

sábado, 26 de fevereiro de 2022

LESYA UKRAINKA - ESPERANÇA



Esperança


 Esperança Sem liberdade e sem bonança, 

Restou-me tão-só a esperança: 

Esperança de ver a Ucrânia mais uma vez,

 De ver mais uma vez meu pago amado,

 De ver mais uma vez o Dnipró azulado, -

 De lá viver ou morrer, para mim, tanto faz; 

De ver mais uma vez as estepes, seus jazigos,

 Lembrar-me enfim dos sonhos então tidos... 

Sem liberdade e sem bonança, 

Restou-me tão-só a esperança


Excerto de um poema  de Lesya Ukrainka  escrito com apenas 9 anos de idade, o poema parece ter sido inspirado pela situação de uma tia presa politica


Biografia AQUI


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

RENASCER - MAIS UM SONHO REALIZADO

  

Nasceu hoje o meu terceiro filho literário. Renascer. Em edição bilingue graças à amizade e generosidade  do Joaquin  Duarte e da sua turma de alunos. 



"O ano de mil novecentos e sessenta e oito, caminhava a passos largos para o fim. A guerrilha das fações políticas que lutavam pela independência nas colónias estava ao rubro, enquanto na chamada Metrópole cada vez se levantavam mais vozes contra o regime."

Assim começa a história de Julião, um jovem ferido na guerra colonial, que não sabe bem ao certo quem é, mas sabe ter uma missão. Regressar para casa, e cuidar da esposa que deixara grávida, cuja fotografia carrega na carteira. 
Mas será Julião quem pensa que é?






segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

DIA 14 DE FEVEREIRO - DIA DE S. VALENTIM - DIA DOS NAMORADOS - HILDA HILST

 


   AMA-ME

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo. 


Hilda Hist,  já é uma poeta desta casa, e por isso a biografia já foi publicada, numa das anteriores publicações.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

MARIA DO SAMEIRO BARROSO

 



As vindimas da noite

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite onde se despenham as ravinas,
o corpo insidioso arrastando o mar, a boca,
os joelhos sonâmbulos,
os barcos que se cobrem de limos, grãos de areia,
esquecimento.

As harpas do horizonte ergueram-se já,
como árvores frondosas.
Nas colmeias de sangue, fervilha a rosa,
a corola verde, o tumultuoso nome,
o timbre infinito.

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite,
no vazio errante de um coração silábico
que se abre, suspenso,
por dentro das estrelas, à deriva.

No vazio leve das miragens, esconde-se,
nas vindimas da noite,
o corpo dormente da eternidade que rebenta,
silenciosa,
nos punhais ébrios de salsa, cinza,
aspergindo, na névoa minuciosa,
o ruir das telhas, entre ervas, dedos,
acariciados lentamente.




Biografia  e mais poemas AQUI