Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

Seguidores

terça-feira, 27 de setembro de 2022

ELVIRA CARVALHO



Louca Perigosa


Deixem-me ir para a rua
quero gritar
chorar
cantar.
Quero levantar bem alto
a bandeira
do desespero.

Quero rir-me de ti
de mim
de todos nós.
Quero que os bandidos
chorem
a dor
e a vergonha
de o serem.

Quero dar pão
A quem tem fome
e dar água aos sedentos.
Quero dar amor
carinho
ternura
a quem vive só.

Quero sofrer com o presidiário
e sorrir feliz com os noivos.
Quero dar um lar aos órfãos
E trabalho a quem o procura.
Quero que todos os políticos
unam esforços
numa aliança firme
por um mundo melhor.

Quero acabar com o terrorismo
e as penas de morte.
Quero acabar com a fome
a poluição,
e a guerra.

Deixem-me ir para a rua
Deixem-me erguer bem alto
a minha bandeira.
E escrevam depois nos jornais
Que anda por aí à solta
Uma louca perigosa.


Elvira Carvalho 

in  "perdidamente" vol III páginas 179/180

domingo, 18 de setembro de 2022

NINA RIZZI










lastro



a poesia dizia que a gente não ia mais parar
de se olhar. nunca mais, nunca mais.
e eu não li mais nada. quiçá vi ouvi. amiúde

deixei de me derramar também. hoje,

eu dou umas risadinhas como as suas. umas
risadinhas assim, meio de leve, de olhar buendía. de você
peguei isso, assim, sem querer. você

me dá vontade de chorar


- Nina Rizzi, no livro "tambores pra n'zinga". são paulo: editora multifoco, 2012.


Biografia AQUI

domingo, 11 de setembro de 2022

BETH BRAIT ALVIM

 


OUTONO

 

quando era jovem

a dor doía

horizontal

 

bastava o pôr-do-sol

e os dias não eram iguais

hoje o outono escorre nos vitrais

e no outono a dor é

vertical

 

trajo vestes escuras

e baixo os olhos quando vejo o

horizonte

 

assim a dor

afunda meus pés no chão

amarra o nariz ao queixo

e a boca cerrada rumina terra



Beth Brait Alvim (São Paulo/SP) - Poeta, contista e ensaísta, com atuação em teatro, cinema e vídeo, políticas culturais e ação cultural. Bacharel em Letras Neo-latinas (Português, Latim, Francês) com Licenciatura Plena em Língua e Literatura Luso-brasileira e Língua e Literatura Francesa, pela FFLCH da USP. Especializou-se em Ação Cultural pela ECA – USP. Tem Extensão Universitária em Antropologia do Imaginário pela ECA-USP, e pelos Seminários Avançados sobre a Modernidade: a literatura e a Filosofia do século XX e pelos Seminários Avançados sobre a Pós-modernidade, ambos pela FSA- Fundação Santo André, PMSA, Casa da Palavra e Escola Livre de Literatura de Santo André. Autora de vários livros e antologias, onde se destaca: Visões do Medo (Escrituras Editora, 2007), Ciranda dos tempos – espaços do desejo (2ª edição/Escrituras Editora, 2005)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

LILA RIPOLI




PEDIDO

Não me falem de tristezas
que eu as conheço de cor.
Falem-me sim de alegrias,
que tem um gosto melhor.

De tristezas — o meu peito
gastou anos a chorar.
Tirei um curso de mágoas.
Ninguém me pode ensinar.

Biografia AQUI

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

JULIA LOPES DE ALMEIDA

 


A laranjeira

Perfumada laranjeira,

Linda assim dessa maneira,

Sorrindo à luz do arrebol,

Toda em flores, branca toda

– Parece a noiva do Sol

Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos, agora!

E entre as folhas abrigados,

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos.

Júlia Lopes de Almeida


Biografia AQUI

domingo, 21 de agosto de 2022

ROSALIA DE CASTRO

 







SOMBRA  NEGRA

Quando penso que você está fugindo,
sombra negra que me espanta,
ao pé da minha cabeça, você
volta zombando de mim.


Se eu imagino que você se foi,
no mesmo sol você olha,
e você é a estrela que brilha,
e você é o vento que sopra.

Se eles cantam, você é quem canta,
se eles choram, você é quem chora,
e você é o murmúrio do rio                                                                                         e você é a noite e a aurora.


Em tudo você é e você é tudo,
para mim em mim você mora,
você nunca me abandonará,
sombra que sempre me surpreende.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

LICÍNIA QUITÉRIO


                                         

foto de Licínia Quitério




Poema 


Há homens que atravessam a rua
sem olhar
Levam nos ombros pedaços da noite
e não há cor que os vista
São homens cinzentos 
indiferentes ao sol ou à borrasca
Quem os vê diz
ali vão os homens tristes
mas nem eles sabem o tamanho
da tristeza ou da improvável alegria
O chão da rua conhece
a cadência incerta
a leveza ausente
dos passos destes homens
Há quem lhes chame homens de bruma
porque vagos são
os seus contornos
Virá uma manhã sem homens tristes
Ninguém perguntará
para onde foram
Alguém escreverá a sua história
no livro branco
do esquecimento
A rua permanece

Licínia Quitério


Biografia

Licínia Correia Batista Quitério, nasceu em Mafra, em 30 de janeiro de 1940. Foi professora, tradutora, correspondente comercial.

Tem editadas as obras de poesia Da Memória dos Sentidos (2005); com prefácio de José Fanha, De Pé sobre o Silêncio (2008), com prefácio de Hélia Correia; Poemas do Tempo Breve (2011), com prefácios de Joaquim Pessoa e Cristina Carvalho; Os Sítios, 2012; O Livro dos Cansaços (2015). Em prosa publicou Disco Rígido (2013) Disco Rígido - volume II (2015).

Mantém dois blogues, desde 2006, O Sítio do Poema e Outros Sítios. Tem colaborado em jornais e revistas. Diz poesia e ensina a dizer. Organiza tertúlias com poetas convidados.

domingo, 7 de agosto de 2022

ANA LUÍSA AMARAL- TESTAMENTO

 



Testamento

Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.


Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral partiu a 5/08/2022. Foi das primeiras poetas a habitar este espaço com o poema "Um céu e nada mais" em 2008. Isso diz bem de quanto gosto da sua poesia. 

LUZ E PAZ para o seu espírito  

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

VERA DUARTE

 


DESEJOS




Queria ser um poema lindo
cheirando a terra
com sabor a cana

Queria ver morrer assassinado
um tempo de luto
de homens indignos

Queria desabrochar
— flor rubra —
do chão fecundado da terra
ver raiar a aurora transparente
ser r´beira d´julion
em tempo de são João
nos anos de fartura d´espiga d´midje

E ser
riso
flor
fragrante
em cânticos na manhã renovada


VERA DUARTE 

Biografia AQUI



domingo, 24 de julho de 2022

CARLA QUEIROZ

DECLARAÇÃO


Nasci
No ventre desencantado da serpente
No leito guarnecido das sementes

Cresci
Nos trapos sujos do desespero da rocha
Encaracolada e desfeita pelo projecto
do cão

Multipliquei-me
Na corrente do desequilíbrio cívico dos
sinistrados
Como uma espécie de insecto que
pernoita no zumbido.

Da argola e do conto

Morri sem uma bela insígnia
distinguindo minhas intimidades
Sem uma coroa bonita ao redor do meu sonho


 Carla Queiroz

 Biografia
Pouco descobri na net além disto: Carla Queiroz, nasceu no Kwanza-Sul em 1968 Angola, e foi vencedora do Prêmio António Jacinto/ 2001. 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

MARIZE CASTRO



INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.
Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.
Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.
Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.
Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos.
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.
O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.
Biografia AQUI

segunda-feira, 11 de julho de 2022

NATÁLIA CORREIA

 






Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

        Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Natália Correia já é repetente neste espaço pelo que a sua biografia já foi publicada

sábado, 9 de julho de 2022

SYLVIA PLATH - PAPOULAS EM JULHO

 



PAPOULAS EM JULHO

Ó papoulinhas, pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?

Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.

E me fatiga ficar a olhá-las
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.

Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!

Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?

Se eu pudesse sangrar, ou dormir!
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida!

Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.


Sylvia Plath

Biografia



AQUI



Postagem programada. Estou ausente até dia 17.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

MANUELA MARGARIDO




                                         S. Tomé e Príncipe






ALTO COMO O SILÊNCIO


A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.


No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras


Manuela Margarido


Biografia AQUI

domingo, 26 de junho de 2022

AILIME - RASGA-ME NO PEITO A DOR





RASGA-ME NO PEITO A DOR


Rasga-me no peito a dor

da clausura que de ti emerge

de passos no mesmo espaço

onde te confinas com a resiliência

de quem sabe esperar.

Resistes como quem ama

e abraça as dificuldades

como se fossem pequenos sóis

a brilhar na noite escura.

O tempo é apenas um sopro.

Tudo vai ficar bem

quando o coração

busca dentro de si a vida.


Ailime  já é uma repetente neste blog, e merece-o pois a sua poesia tem evoluído muito.  Ailime vive AQUI



quinta-feira, 23 de junho de 2022

UM DESAFIO EM VÉSPERAS DE S. JOÃO


Ora bem aqui  aqui está um manjerico e o desafio é o seguinte:

Cada visitante deverá deixar nos comentários uma quadra dedicada ao Santo.  Aqui deixo a minha, embora eu não tenha jeito nenhum para rimar.


Quiseste saltar comigo

A fogueira de S. João

Eu queimei o meu vestido

Tu queimaste o coração.


***************************

A fogueira vim pular

esqueci  até minha idade.

Quando um pulo eu fui dar,

Queimei a poupança de verdade!!

CHICA

**************************


Cheia de medo fechei os olhos

E assanhada, assim saltei

A fogueira estava brava

E o que não devia, queimei.

PIEDADE SOL ARAÚJO

***********************


Saltei a fogueira de calção e lanterna

Disse que só de um lado não fico

Queimei os pelos de uma perna

Disfarcei com as folhas do manjerico

RIK@RDO

*************************

Ouvem-se belas cantigas

Na noite de S. João

Alegram-se as raparigas

Nas rusgas de arco e balão.

JUVENAL NUNES

***********************

Deram-me um abraço diferente

Neste S. João catita

Foi algo de aroma "amanjericado"

Empresto-o, pois o deram à Janita!!:)

JANITA

***************************

É São João, a fogueira está acesa,

Tem mugunzá, cocada e pé-de-moleque,

Bandeirolas coloridas, não fico ilesa,

Ponho minha caipira e abro meu leque.

ROSELIA  BEZERRA




quinta-feira, 16 de junho de 2022

LAIANE SOARES - ENSINA-ME A SENTIR


 ENSINA-ME A SENTIR


A viver o mundo sem medo

A andar pelas ruas na paz de perceber tudo que as compõe

A sentir o vento passar por meu rosto fazendo meus cabelos flutuarem livres

A ouvir os pássaros cantarem cantos infindos de liberdade

A saltitar enquanto ando na leveza de poder ser quem sou

A sentir o sol arder em minha pele reluzindo o bronze

da minha cor, da minha dor, da minha história.

As ruas estão cheias de perigos que podem me atravessar

Ensina-me a ter esperança

Ensina-me a ter segurança

A desbravar o mundo sem pestanejar

Andar por cada canto sem o relógio precisar olhar

Ensina-me a viver sem medo, hoje eu quero sair pelas ruas sem me preocupar

Por qual caminho é mais seguro para passar

Com qual barulho devo me atentar

Ensina-me a viver sem medo

A sentir a vida mansa sem hesitar

A andar pelas ruas bem devagar

Ensina-me a viver em paz.


Encontrei Laiane Soares  AQUI onde podem ler e conhecer a jovem autora pelas suas próprias palavras. 





domingo, 12 de junho de 2022

E PORQUE ESTAMOS NO SANTO ANTÓNIO



João Villaret - Passeio de Santo António (Augusto Gil)


Se não me engano esta é a segunda vez que entra neste blog um poeta masculino em 14 anos de blogue. 
Mas por mais que procurasse não encontrei na Internet nenhum poema a Santo António escrito por uma das muitas poetas que por aqui costumam passar.


sexta-feira, 10 de junho de 2022

10 DE JUNHO - DIA DE PORTULAL - DE CAMÕES - E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

 




Dulce Pontes & Banda da Armada - O Amor a Portugal
O AMOR A PORTUGAL

O dia há de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então
O amor há de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar
Um dia há de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal


BOM FERIADO



domingo, 5 de junho de 2022

ROSÁLIA DE CASTRO


 Busque e anseie pela paz

Ele procura e anseia por calma...
mas... quem vai acalmá-lo?
Com o que sonha acordado,
adormecido volta a sonhar.
Que hoje como ontem, e amanhã como
hoje, em sua eterna ânsia
de encontrar o bem a que aspira
-quando só encontra o mal-,
sempre condenado a sonhar,
nunca se acalme.


Biografia AQUI

quarta-feira, 1 de junho de 2022

1 DE JUNHO - DIA DAS CRIANÇAS



 Esta menina

tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meirelles