Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta poesia brasileira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia brasileira. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de julho de 2024

SÍLVIA SCHMIDT - SE PERGUNTARES

 



SE PERGUNTARES


Nunca perguntas se algo me fizeste
Quando ao teu lado eu murcho e silencio.
Tu não percebes que estou por um fio
E tão instável quanto o vento leste.

Tu não me vês perdida em meu vazio,
Onde me falta o tanto que já deste,
Onde só vejo o quanto já esqueceste
O amor de outrora, agora tão sombrio.

Tu não percebes quão latente é o grito
Que há nos meus olhos quando os teus eu fito,
Num permanente ensaio de partida.

Se perguntares se algo me fizeste,
Eu te direi: "que nada, amor! só te esqueceste
que no meu sangue ainda corre vida!"



Biografia AQUI

sábado, 28 de janeiro de 2023

ADA CIOCCI CURADO - MINHA CASA






Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.




Biografia AQUI

domingo, 30 de outubro de 2022

ADA CIOCCI CURADO - ACALANTO


 Acalanto



Vai amado. 
Busca por onde quiseres, 
com quem quiseres, 
como quiseres, 
o prazer. 
Até mesmo, 
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor. 
E, 
se por acaso te cansares 
e, 
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares, 
se desejares, 
volta. 
Serei a que conforta. 
Não saberás da dor, 
da saudade, 
das lágrimas sentidas que tua ausência causou. 


In Acalanto, 1991


Biografia AQUI

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

JULIA LOPES DE ALMEIDA

 


A laranjeira

Perfumada laranjeira,

Linda assim dessa maneira,

Sorrindo à luz do arrebol,

Toda em flores, branca toda

– Parece a noiva do Sol

Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos, agora!

E entre as folhas abrigados,

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos.

Júlia Lopes de Almeida


Biografia AQUI

segunda-feira, 18 de julho de 2022

MARIZE CASTRO



INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.
Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.
Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.
Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.
Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos.
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.
O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.
Biografia AQUI

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

MARIANA IANELLI



Para amanhã



 Faz tua casa um fragmento de alma,

 cobre o teu pensamento.
 Vai, que estás em tempo de colher-te,
 um minuto para ser teu.
 Interrompe tuas regatas desbravadas,
 saídas das marinas solitárias,
 e retribui para terra a demonstração das tuas patas.
 Que não há segunda vez,
 um homem se esgalha da marga ou desiste.
 Para terra dá teus domingos desagradáveis e os risíveis.
 Fica lasso, pétala urdida no sol e na água.
 Vai, capaz de crescer.


- Mariana Ianelli, em "Duas chagas". São Paulo: Iluminuras, 2001.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

MARIA FIRMINA DOS REIS


Confissão



Embalde, te juro, quisera fugir-te, 
Negar-te os extremos de ardente paixão: 
Embalde, quisera dizer-te: - não sinto 
Prender-me à existência profunda afeição.
Embalde! é loucura. Se penso um momento, 
Se juro ofendida meus ferros quebrar: 
Rebelde meu peito, mais ama querer-te, 
Meu peito mais ama de amor delirar.

E as longas vigílias, - e os negros fantasmas, 
Que os sonhos povoam, se intento dormir, 
Se ameigam aos encantos, que tu me despertas, 
Se posso a teu lado venturas fruir.

E as dores no peito dormentes se acalmam. 
E eu julgo teu riso credor de um favor: 
E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se, 
Rendida aos sublimes mistérios do amor.

Não digas, é crime - que amar-te não sei, 
Que fria te nego meus doces extremos... 
Eu amo adorar-te melhor do que a vida, 
melhor que a existência que tanto queremos.

Deixara eu de amar-te, quisera um momento, 
Que a vida eu deixara também de gozar! 
Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te, 

Sou louca... perdida, só sei te adorar.


- Maria Firmina dos Reis, em "Cantos à beira mar". São Luís do Maranhão, 1871, p. 79-80.



Biografia AQUI

domingo, 26 de setembro de 2021

MYRIAM FRAGA


Semeadura



O limite da luz
é o espaço do salto.

É a casa do sonho,
o caminho de volta,
extravio ou derrota.

O pássaro é este silêncio
cortando como faca.

É a bicada no ventre:
semeadura de mel
nos meus campos molhados.

Oh! eterno seja o passo
minha pele no teu aço,
ó pássaro, pássaro.

Senhor do sol me arrebata,
ó pássaro,
tuas garras como arado
revolvendo meus pedaços.

Meu corpo de sementeira
na raiz do teu abraço.

Um arco-íris de espigas
no meu seio, meu regaço
como um odre

na esperança de teu vinho,
meu canto no teu cansaço
ó pássaro, pássaro.




- Myriam Fraga, em "A lenda do pássaro que roubou o fogo". Salvador: Editora Macunaíma, 1983


Biografia AQUI

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

VIVIANE MOSÉ


Toda palavra 


Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
 mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.



- Viviane Mosé, em "Toda palavra".  Rio de Janeiro RJ: Editora Record, 2008.


Biografia AQUI

terça-feira, 3 de agosto de 2021

EULÁLIA MARIA RADTKE



As elegias

(1)

É meio dia em minha
vida,
meu sonho
meu sol,
minha dança alucinada
no horto.

Para quem fui,
gotas ficaram pendentes
nas espigas.
Para quem sou,
canto humilde e ave
partida.

É meio dia em minha
vida,
este relógio  de hastes
singulares e plurais
ceifando o tempo,
trazendo à luz
banquetes fartos e limpos
- irreais




- Eulália Maria Radtke, em "O sermão das sete palavras". Florianópolis SC: FCC Edições; Brasília: Thesaurus, 1985.

Biografia AQUI

postagem programada

sábado, 19 de junho de 2021

RACHEL DE QUEIROZ



Telha de Vidro


Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha...
tão velha...
quem fez aquela casa foi seu bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia...

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa...
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia...
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


- Rachel de Queiroz, in "Mandacaru".


Biografia AQUI



Por causa dos olhos estou a restringir ao máximo a presença no computador. Por isso as postagens serão bem mais espaçadas.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONCEIÇÃO EVARISTO



Do fogo que em mim arde


Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.

Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.



- Conceição Evaristo, em "Poemas da recordação e outros movimentos". Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Biografia da autora AQUI

sábado, 13 de março de 2021

MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS







Construção tardia



Acordamos tarde para a tarefa
de juntar as partes da vida,
jogo de armar em mãos inábeis.

Demasiado próximos da seiva,
enxergamos pouco.
Quem disse que é tão simples
dividir a vida em frases?
(ó infância rasurada!)
Só tempos fases.

A vida invade o tempo
(e não o oposto)
e nos atordoa
com sua face leve,
sedução e jogo,

ó vida, vida,
construção tardia:
acordamos tarde nessa arquitetura.

Grande é a gula. Parcas as nascentes.
Mas a garganta molha-se de sede,
procriando espaços de viver.



- Maria da Conceição Paranhos, em "As esporas do tempo". Salvador BA: Fundação Casa de Jorge Amado/ COPENE, 1996


Biografia AQUI

segunda-feira, 8 de março de 2021

MARINA COLASANTI - EM DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 




EU SOU UMA MULHER


Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

 

Os homens vertem sangue

por doença

sangria

ou por punhal cravado,

rubra urgência

a estancar

trancar

no escuro emaranhado

das artérias.

 

Em nós

o sangue aflora

como fonte

no côncavo do corpo

olho-d'água escarlate

encharcado cetim

que escorre

em fio.

 

Nosso sangue se dá

de mão beijada

se entrega ao tempo

como chuva ou vento.

 

O sangue masculino

tinge as armas e

o mar

empapa o chão

dos campos de batalha

respinga nas bandeiras

mancha a história.

 

O nosso vai colhido

em brancos panos

escorre sobre as coxas

benze o leito

manso sangrar sem grito

que anuncia

a ciranda da fêmea.

 

Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

Pois há um sangue

que corre para a Morte.

E o nosso

que se entrega para a Lua.

 

 

In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993



Biografia AQUI


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

OLGA SAVARY




Amanhã

Se devoras teus sonhos
quando se ensaiam apenas
e secamente represas
essa linguagem de flores
e teu desejo de asas
que restam subterrâneas,
quem serás tu, depois
do grande sono, amanhã?

- Olga Savary (Caieiras, janeiro 1954), em "Repertório selvagem: Obra Reunida". Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional; MultiMais Edições; Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.


Biografia AQUI


Mais poemas AQUI




E HOJE TAMBÉM ESTOU NO BLOGUE DA NOSSA AMIGA GRACITA.
AQUI   SE PUDEREM VÃO ATÉ LÁ

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

NYDIA BONETTI






3 poemas de Nydia Bonetti



a caixa miúda a vida pequena
o verso raro
hoje tudo é pouco e o rio é raso
já não canta
se arrasta em ruídos
num fio
que se esquiva das pedras
do fundo
quase seco




- Nydia Bonetti, em "Sumi-ê". São Paulo: Editora Patuá, 2013.



a imensa - a árvore - me faz voltar
à infância
flores - o que meus olhos viam
     eu desejava os frutos
as mãos se aventuram na vertical
vertigem
dos galhos altos
    eu desejava o vento



- Nydia Bonetti, em "Sumi-ê". São Paulo: Editora Patuá, 2013.



a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas
     diz do sol
embora quase noite
diz do pão
      embora as mãos vazias
      diz de nós - na janela do dia

que já passou





- Nydia Bonetti, em "Sumi-ê". São Paulo: Editora Patuá, 2013.



Biografia e mais poemas AQUI

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

NARA RÚBIA RIBEIRO




SEM PELE
A alma de toda a gente tem cercanias.
A minha, não tem.
É um descampado.
Não tem telhado, não tem paredes.
Muitas vezes, nem chão.
E sinto no peito as encostas
de tudo o que sangra e corrói.
Também toda a beleza me visita sem licença
e a poesia de tudo me acontece.
Mas a beleza, não raro, ela fere.
As garras de um beija-flor podem ser mortais
a uma alma sem pele.
Então, por isso, às vezes me exaspero e grito
para que o meu peito,
em desabrigo,
não seja tão violado.
Mas quando me sai o protesto,
as minhas palavras também me sangram
e morro mais um tanto por dentro.
Já não quero a palavra que afugenta a dor.
Quero o silêncio que cicatriza a ferida
e que me prepara para a dor mais forte:
a própria Vida.

– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes” .

Biografia e vários poemas mais AQUI

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

GRAÇA GRÚNA






Caos climático

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar. 
 


- Graça Graúna (outubro 2009), in: LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna(...). Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 146.



Biografia e outros poemas AQUI

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

DEBORAH BRENNAND






Você só diz



O que eu não quero ouvir.
Não fala de uma ilha
onde nasce um rio
que desagua céus.

Não lembra caminhos
indo, indo se esconderem
em matos e pedras.

Não ergue o facão do sol
e faz zunir centelhas
nas alamedas do estio.

Nem traz assombros
de ramagens na noite
pisando o carmim das flores.

Você só diz – Eu te amo.

Assim não dá, é pouco
muito pouco para se levar a vida.



- Deborah Brennand, em "Folhagens". Recife: Travessa dos Editores, 2002.


Biografia AQUI



sábado, 7 de novembro de 2020

MIRIAM ALVES





Calafrio



O sorriso gela
a porta do paraíso prometido

A tarde cobre-se de frio

grita
esconde-se atrás dos
casacos
faz esculpir aquela saudade
do lugar
jamais percorrido.

Escorrem feito sorvete

as esperanças derretidas
no ardor do querer.


- Miriam Alves, em "Cadernos Negros". n. 7, São Paulo: Quilombhoje, 1984.



Biografia AQUI