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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

GRAÇA PIRES - ANTÍGONA PASSOU POR AQUI









 Graça Pires in " Antígona Passou Por Aqui"    Poética Edições - pag 34

Graça Pires dispensa apresentações, quase todos a conhecem, ou dos livros publicados ou do seu blog 

Ortografia do olhar

De resto a autora já é repetente neste espaço


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

FERNANDA MARIA - O VOO

                                                        

                                                   

O VOO


Todas as manhãs, Maria toma o pequeno-almoço numa padaria perto da sua casa.

Apesar do medo que sempre a acompanha, o ambiente quente do pão a cozer, o cheiro do café e o odor adocicado dos bolos, faz com que arrisque e ceda a este pequeno luxo, a esta pequena rotina.

Sentia frio, um frio vindo de dentro, imenso, que não a largava e a consumia.

Olhou para o telemóvel, mais por hábito do que por necessidade, afinal não tinha ninguém, nem nenhum trabalho à sua espera.

Há muito que sobrevivia das suas poucas economias, até quando...

Lá fora, a esplanada com as mesas agora vazias, recordou-lhe outros dias, mais felizes.

Sentou-se a beber o café fumegante com o olhar vagueando.

Um pardalzinho foi entrando devagar, estacando atento, em cima do tapete da entrada.

Saltitando como todos os pardais, foi debicando migalhas caídas dos embrulhos de papel que envolvem o pão.

Não soube se foi por causa do pequeno pardal ou da cafeína que vinha ingerindo, mas um súbito e reconfortante calor percorreu-lhe o corpo, e no seu rosto, voou um sorriso.

Fernanda Maria

(Fê Blue Bird)


NOTA : . Este é um texto poético do primeiro livro da Fernanda Maria, a Fê, do blogue que dá o nome ao livro. Um livro, há muito tempo aguardado por quem como eu admira a sua escrita, onde a poesia  nasce de uma amalgama de sentimentos que brotam da própria alma.

Obrigado Fê.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

ELVIRA CARVALHO - ESCUTA

 

ESCUTA
o murmúrio do rio
de pedra em pedra.

não te parece
alguém
chorando?

talvez seja
o choro dorido
daquelas pobres mães
a quem
falta a comida
para matar a fome
aos filhos.

Ou quem sabe o lamento
do pobre velho
abandonado
num corredor de hospital
o corpo doente
a alma sem forças
para lutar .

Ou ainda
o desespero
do jovem,
que dia após dia,
rompe solas
e energias
na busca de emprego
engolindo a raiva
contra aqueles
que lhe roubam
o direito ao futuro.

Escuta
o murmúrio do rio
de pedra em pedra


Não te parece
alguém
chorando? 

Elvira Carvalho

domingo, 2 de janeiro de 2022

EU AINDA NÃO ENCONTREI O QUE PREGUEI - CARMEN VERVLOET




EU AINDA NÃO ENCONTREI O QUE PREGUEI 

Eu caminhei de um lado a outro…
 Atravessei continentes…
 Procurei nas aldeias distantes…
 E também no centro das metrópoles… 
Mas ainda não encontrei o que preguei…
 Procurei no sorriso da criança… 
Ou na consciência do adulto…
 Em cada vulto… 
Um indulto… 
Uma esperança… 
Mas ainda não encontrei o que preguei… 
Viajei… 
Naveguei…
 E novamente solucei… 
Pelo que não encontrei… 
Uma paz em uníssono… 
E ainda não encontrei o que preguei… 
Voltei em silêncio… 
Vi tantas guerras… 
Tanto calafrio… 
Tanta morte anunciada em vida…
 Vestida de Midas…
 E ainda não encontrei o que preguei…
 Vasculhei as cidades… 
Vi tanta desigualdade… 
Mesas cheias, frutas importadas… 
Árvores coloridas, tão iluminadas… 
Enquanto em tantas casas falta 
O pão de cada dia… 
Morrendo de fome tantos Josés e Marias… 
E ainda não encontrei o que preguei… 
Percorri todos os distritos… 
Vi crianças pedindo esmolas… 
Crianças sem escolas… 
Rostos contritos… 
Pais aflitos… 
E ainda não encontrei o que preguei… 
Procurei por todas as ruas… 
Vi tantas almas nuas… 
Adolescentes drogados, abandonados… 
Idosos nas calçadas jogados… 
E ainda não encontrei o que preguei… 
Fotografei cada coração… 
No lugar da alegria e do perdão 
Só enxerguei mágoa e tristeza…
 Vi muita dureza e aspereza… 
E ainda não encontrei o que preguei… 
Ainda não encontrei o que procurei… 
Um eco constante a cada ano… 
Que ressoa aos meus ouvidos…
 Vem-me o desânimo… 
Os ideais de fraternidade… 
Irmãos dêem-se as mãos… 
Não fiquem na contramão do amor… 
Semeando angústia e dor… 
Porque o que preguei…
 Foi à festa da libertação… 
A igualdade entre os homens
 Sem discriminação… 
O direito à vida… 
Toda gente por mim foi redimida! 
Porque o que preguei… 
Foi o direito a conscientização… 
A luta para extinguir o mal… 
E o desejo de um mundo ideal… 
Porque o que preguei… 
Foi o grito de protesto a opressão… 
O dia a dia lutando com ardor… 
Para a morte da miséria… 
Para a ressurreição do amor… 
Eu preguei a paz… O respeito…O amor…
 E como nada disso 
Entre os homens encontrei… 
Continuo procurando o que preguei… 
Carmen Vervloet 


Biografia de Carmen Vervloet
A autora está na Internet  AQUI