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domingo, 21 de julho de 2024

TERESA RITA LOPES - SE ÉS MEU AMIGO



 SE ÉS MEU AMIGO


Se és meu amigo
oferece-me um barco

e deixa-me no meio do mar
sozinha

Se gostas de mim
inventa para hoje
uma ilha

e deixa-me nua
na areia


Apenas o corpo das dunas
apenas a ansiedade dos juncos
apenas a pressentida viagem dos peixes

Apenas a alta sombra fresca
dos pássaros
passando


Biografia Teresa Rita Lopes já é repetente neste espaço. AQUI Publiquei a sua biografia

quinta-feira, 19 de maio de 2022

GRAÇA PIRES



 Eu te baptizo em nome do mar



Eu te baptizo em nome do mar,

disse minha mãe com barcos na voz.

E as ondas enlearam nas águas o meu nome,

abrindo nas fendas do corpo um impulso

salgado que me brandiu o sangue.

Sei agora que há âncoras afogadas

nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
   

Graça Pires não necessita apresentação, já faz parte das poetas que por aqui passam e a sua biografia já foi publicada anteriormente

sábado, 23 de outubro de 2021

ROSA ALICE BRANCO


Arte Poética

Gostaria de começar com uma pergunta

ou então com o simples facto

das rosas que daqui se vêem

entrarem no poema.


O que é então o poema?

um tecido de orifícios por onde entra o corpo

sentado à mesa e o modo

como as rosas me espreitam da janela?


Lá fora um jardineiro trabalha,

uma criança corre, uma gota de orvalho

acaba de evaporar-se e a humidade do ar

não entra no poema.


Amanhã estará murcha aquela rosa:

poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte

e depois entrar num canteiro do poema,

enquanto um botão abre em verso livre

lá fora onde pulsa o rumor do dia.


O que são as rosas dentro e fora

do poema? Onde estou eu no verso em que

a criança se atirou ao chão cansada de correr?

E são horas do almoço do jardineiro!

Como se fosse indiferente a gota de orvalho

ter ou não entrado no poema!

 

Rosa Alice Branco

Soletrar o Dia Obra poética

Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002


Biografia AQUI


segunda-feira, 8 de março de 2021

MARINA COLASANTI - EM DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 




EU SOU UMA MULHER


Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

 

Os homens vertem sangue

por doença

sangria

ou por punhal cravado,

rubra urgência

a estancar

trancar

no escuro emaranhado

das artérias.

 

Em nós

o sangue aflora

como fonte

no côncavo do corpo

olho-d'água escarlate

encharcado cetim

que escorre

em fio.

 

Nosso sangue se dá

de mão beijada

se entrega ao tempo

como chuva ou vento.

 

O sangue masculino

tinge as armas e

o mar

empapa o chão

dos campos de batalha

respinga nas bandeiras

mancha a história.

 

O nosso vai colhido

em brancos panos

escorre sobre as coxas

benze o leito

manso sangrar sem grito

que anuncia

a ciranda da fêmea.

 

Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

Pois há um sangue

que corre para a Morte.

E o nosso

que se entrega para a Lua.

 

 

In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993



Biografia AQUI


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

OLGA SAVARY




Amanhã

Se devoras teus sonhos
quando se ensaiam apenas
e secamente represas
essa linguagem de flores
e teu desejo de asas
que restam subterrâneas,
quem serás tu, depois
do grande sono, amanhã?

- Olga Savary (Caieiras, janeiro 1954), em "Repertório selvagem: Obra Reunida". Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional; MultiMais Edições; Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.


Biografia AQUI


Mais poemas AQUI




E HOJE TAMBÉM ESTOU NO BLOGUE DA NOSSA AMIGA GRACITA.
AQUI   SE PUDEREM VÃO ATÉ LÁ

domingo, 13 de dezembro de 2020

TERESA RITA LOPES







PRESÉPIOS


De presépios gosto

desde menina.

De construir por minhas mãos um pequenino mundo

a meu jeito.

A moda do Pai Natal só veio mais tarde

assim como a da Árvore de Natal.

Com ele nunca engracei

postiço das barbas até à barriga.

Quem trazia presentes à minha infância era o Menino Jesus

– cedo percebi que era uma maneira de dizer
como as fadas.

Como podia alguém como eu descer pela chaminé

sem se sujar nem se aleijar?!

Da Árvore de Natal só gosto por ser árvore

e verde.
(Pensar que as há de plástico!)

Hoje tenho presépios pela casa toda

todo o ano!
Que vou comprando por onde ando.

O meu Menino Jesus gosta de ser muitos

e de diferentes sítios como o Pessoa!

No Natal limito-me a atualizá-los com musgo.

E líquenes. E pinhas que trouxe ontem da Fonte do Sol.

Povoo esse mini-mundo também com conchas

que combinam com a cor do barro rosado
do presépio de Viana.

Mas do que mais gosto

é do musgo:
cheira a terra molhada
a verde
a vida.

Sorrio para o Menino (o mesmo em todos os presépios)

e digo-lhe:

Bem hajas por vires todos os anos

festejar com os homens o dia dos teus anos!
Invento para ti mundos simples e pacíficos
para eles se envergonharem das suas ambições
e guerras.

Ámen.
Teresa Rita Lopes

AQUI a biografia da autora

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

GRAÇA GRÚNA






Caos climático

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar. 
 


- Graça Graúna (outubro 2009), in: LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna(...). Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 146.



Biografia e outros poemas AQUI

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

JANITA




CONSTRUÇÕES.


 É nas noites,

longas e quase eternas

que procuro construir-te à medida

do meu sonho.

Faço-te, desfaço-te

foge-me o traço.

Escovo, raspo, 

encho de água fresca o tanque.

Lavo, esfrego com água e sabão,

o meu cansaço e

adormeço sem te saber.


Mas é logo de manhã, ao acordar,

que sempre te reconheço

                      mesmo sem te conhecer...


Biografia

A Janita, é uma colega nossa, aqui da blogosfera. É simpática, brincalhona, e escreve muito bem, sobre os mais diversos motivos, pelo que acompanhar o seu  Cantinho é muito agradável.  Há pouco tempo começou a mostrar-nos os seus dotes de poeta. E como podem ver e ler, a sua poesia é mesmo muito boa.

sábado, 24 de outubro de 2020

MANUELA AMARAL





                                      I
Sexo-Cama
Fui ordinária
requintada
tímida
Misturei poesia com vários palavrões
Gritei
Uivei
Gemi
Rasguei almofadas e lençóis

Fui carnaval de amor
no circo de uma cama.
                           II

NASCI-TE

 

No meu ventre de mulher cresceu teu feto

e foi a minha boca que te deu palavras

e silêncios para tu gritares
Dos meus braços multipliquei teus braços
e dei distâncias para tu voares
Dei-te tempos-de-nada
medidos de coragem
E foste. E és.


Manuela Amaral


Biografia AQUI

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

BRUNA BEBER



As avós e as tias



durante toda minha caminhada
pela bola que uns chamam
de terra e outros de água
ou como carinhosamente
já apelidaram um amigo
balofo no colégio
só consegui
tomar posse
de uma certeza
e por isso gostaria
de dividi-la passem
para os seus filhos:
não há
sequer 
um ser 
humano que caminhe
pela bola – há quem
a diga achatada –
que não tenha
não teve
ou nunca terá 
uma 
toalha 
bordada
é importante 
que seus filhos
passem pros deles
essa verdade
mas se não tiverem
filhos netos tudo bem
sempre terão toalhas
bordadas.



- Bruna Beber, no livro "Rua da PadariA". Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.


Biografia AQUI


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

ASTRID CABRAL



Modo de amar

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.




Biografia AQUI

terça-feira, 11 de agosto de 2020

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


GUARDA TU AGORA O QUE EU, SUBITAMENTE , PERDI


 Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi

talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,

a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.

Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.

E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,

na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.

E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.

E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

 

Mª do Rosário Pedreira

in A casa e o cheiro dos livros (Quetzal, 1996)

in Poesia reunida (Quetzal, 2012


Biografia  AQUI

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

LILIAN AQUINO

Foto da poetisa


Indigesto


Como um comprimido
engulo este dia.
De oito em oito horas
me lembro
não há remédio
a não ser comer
esta demora que a vida leva
pra curar uma dor
Meus dentes estão moles
como balas de goma
impossível mastigar
estes segundos





Biografia e outros poemas AQUI

terça-feira, 4 de agosto de 2020

ANNITA COSTA MALUFE




Nêsperas
O que foi que aconteceu connosco? 
O que é 
que agora 
tão distantes
miramos neste casto horizonte
nesperado
que montanhas foram estas que cruzamos
quais foram os andaimes
quais os versos que nos mantêm tão perto
como se os raios de sol no apogeu
pudessem ser capturados
por um instante
só por um
instante
paro
e retomo as pastas de papéis coloridos
de papéis passados 
e retomo os panos os enganos
(Poderíamos ter sido 
algo 
e não fomos? 
Poderíamos? 
O que poderíamos tanto? 
O que tanto quisemos juntas?)
Paro 
um instante
diante de teu armazém
e contemplo as rugas de um tempo
imenso
esse que nunca é nosso
e torço para que possamos sempre
nos encontrar aí
neste puro instante sem ponteiros
que tão poucos 
- tão poucos mesmo - 
sabem onde fica





- Annita Costa Malufe, em "Fundos para dia de chuva". Rio de Janeiro: 7Letras, 2004. 



Biografia e outros poemas AQUI