
Arte Poética
Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde
entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da
janela?
Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de
orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do
ar
não entra no poema.
Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão
que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso
livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.
O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em
que
a criança se atirou ao chão cansada
de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de
orvalho
ter ou não entrado no poema!
Rosa Alice Branco
Soletrar o Dia Obra poética
Vila Nova de Famalicão, Quasi
Edições, 2002
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