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sábado, 23 de outubro de 2021

ROSA ALICE BRANCO


Arte Poética

Gostaria de começar com uma pergunta

ou então com o simples facto

das rosas que daqui se vêem

entrarem no poema.


O que é então o poema?

um tecido de orifícios por onde entra o corpo

sentado à mesa e o modo

como as rosas me espreitam da janela?


Lá fora um jardineiro trabalha,

uma criança corre, uma gota de orvalho

acaba de evaporar-se e a humidade do ar

não entra no poema.


Amanhã estará murcha aquela rosa:

poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte

e depois entrar num canteiro do poema,

enquanto um botão abre em verso livre

lá fora onde pulsa o rumor do dia.


O que são as rosas dentro e fora

do poema? Onde estou eu no verso em que

a criança se atirou ao chão cansada de correr?

E são horas do almoço do jardineiro!

Como se fosse indiferente a gota de orvalho

ter ou não entrado no poema!

 

Rosa Alice Branco

Soletrar o Dia Obra poética

Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002


Biografia AQUI


terça-feira, 7 de julho de 2020

MARIA DE LOURDES DOS ANJOS



PORTO

.

O velho Porto é feito de calçadas e vielas,

de roupa lavada a bailar nas janelas.

De alminhas com flores e velas.

De telhados coscuvilhando a rua.

E o velho Porto continua…

por frontarias de granito

por degraus gastos e incertos

por portais que não se deixam fechar

por ilhas prenhes de gente e viúvas de mar.

O Porto há-de ser, eternamente,

um estranho segredo a desvendar

um misto de paz e guerra

um silêncio e um grito

uma coroa d’água cinzelada

uma saudade magoada

um abraço apertado

 um coração real apaixonado

 um raio de sol ferido

um palavrão atrevido

UM PORTO ENEVOADO E SENTIDO.


Maria de Lourdes dos Anjos


Não encontrei a biografia de poetisa, embora a Internet tenha muitos poemas e outros trabalhos seus. Sei apenas que é professora. 
.

terça-feira, 16 de junho de 2020

CLÁUDIA R. SAMPAIO





Tragam-me um homem que me levante
com os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.

Cláudia R. SampaioVer no Escuro



Biografia AQUI


quinta-feira, 28 de maio de 2020

ANA MAFALDA LEITE

foto da net


Papoilas

estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha

opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras

Ana Mafalda Leite


Biografia

Ana Mafalda Leite nasceu em Portugal e apenas com alguns meses foi para Moçambique (Tete-Moatize), onde viveu até aos dezoito anos, tendo feito parte dos estudos universitários em Maputo, na Universidade Eduardo Mondlane.
Literáriamente vincula-se ao país onde cresceu, com o qual mantém uma relação de pertença afectiva, bem como apaixonada intervenção criativa e crítica.
É professora na Universidade de Lisboa e especializou-se em Literaturas Africanas, desenvolvendo actividade de pesquisa e de docência em várias universidades de língua portuguesa e estrangeiras. Autora de livros de ensaio, entre os quais A Poética de José Craveirinha (1990), Oralidades & Escritas nas Literaturas Africanas (1998) e Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais (2003).
Como poeta publicou Em Sombra Acesa (1984), Canções de Alba (1989), Mariscando Luas (em colaboração com o pintor Roberto Chichorro e com o poeta Luís Carlos Patraquim, 1992), Rosas da China (1999) e Passaporte do Coração (2002).


quarta-feira, 15 de abril de 2020

MARIA TERESA HORTA

                                                           foto da Internet


Desperta-me de noite

Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vicio as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vais descobrindo vales.

Maria Teresa Horta


Biografia
Escritora portuguesa, natural de Lisboa. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, enveredando depois pela carreira jornalística. Dirigiu o ABC Cine-Clube e fez parte do grupo Poesia 61. Colaborou em jornais e revistas (Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal de Letras e Artes, Hidra 1, entre outros) e foi chefe de redacção da revista Mulheres. Feminista, publicou, com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, as Novas Cartas Portuguesas (1971), cujo conteúdo levou as autoras a tribunal. A sua obra encontra-se marcada por uma forte tendência de experimentação e exploração das potencialidades da linguagem, numa escrita impetuosa e frequentemente sensual. Estreou-se com a obra poética Espelho Inicial (1960), a que se seguiram, Tatuagem (1961), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Amor Habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de Inverno (1966), Cronista Não é Recado (1967), Minha Senhora de Mim (1971), Poesia Completa (1983, dois volumes), e as obras de ficção Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ana (1975), A Educação Sentimental (1975), Os Anjos (1983), Ema (1984), O Transfer (1984), Rosa Sangrenta (1987), Antologia Política (1994), A Paixão Segundo Constança H. (1994) e O Destino (1997). Em 1999, lançou a obra A Mãe na Literatura Portuguesa, constituída por uma longa introdução da autora, depoimentos de várias individualidades, uma antologia de poesia e prosa de escritores portugueses e no fim um conjunto de quadras e provérbios, tudo em torno da temática da mãe. Em 2001, publica Minha Senhora de Mim

biografia da Internet

sábado, 8 de fevereiro de 2020

DALILA MOURA

Entre nós e o infinito

Amamo-nos assim
entre as palavras e a melodia.
Entre o espasmo dos dias
e a brancura da noite.
Soltam-se os fios de luar e tecemos
a cama e o fogo.
Incendiamos as horas – num único momento –
E toda a labareda alastra como furacão
com olho no mar.
Um barco. Um cais deserto.
Duas mãos que remam num toque de sal
que escorrega no corpo e no silêncio.
As palavras não fazem falta.
A ausência é o local onde nos encontramos.
O verde propaga-se entre os olhos e os limos.
Tudo é mar! Toda a nudez se veste de espuma.
E carícia.
Amamo-nos assim: entre o mel e o silêncio.
Entre nós e o infinito.


Dalila Moura
Dalila Moura, já  é repetente neste blog. AQUI  podem ler a sua biografia.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

FERNANDA SENO




Perenidade

Mesmo depois do Tempo

ficaremos no coração aberto dos
que amamos.

E no grande silêncio que restar,

na ausência dos gestos e do olhar
ainda assim estaremos
e seremos.

Mesmo depois do Tempo

quando formos lembrança evanescente,
seremos outra forma de presença
porque o Amor subsiste
Eternamente.


Fernanda Seno



Biografia Aqui

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

MARIA ROSA COLAÇO - PRENDA DE NATAL




PRENDA DE NATAL



Dou-te um pão

e uma flor,
dou-te um búzio
e um beijinho.

Dou-te uma canção

de amor
e um peixe pequenino.

Outro beijo

e uma estrela,
uma história
de encantar,
e um navio azul
para poderes viajar.

Abre as mãos!

Abre os olhos
e o coração
neste dia
e atravessa
também
nossa ponte de alegria.

Esta praia,

esta margem,
são um lugar
construído,
onde pode ancorar
todo o sonho
prometido.

Os da terra

e os do mar
juntos
na mesma sede,
os reis, os pescadores
puxando
a mesma rede.

Leva o beijo,

leva a estrela,
leva também o sonho
e um sorriso contente.

E pede ao Menino Jesus

que fique entre nós
para sempre.



Maria Rosa Colaço

AQUI a biografia da autora

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

SOLEDADE MARTINHO COSTA





Outros Natais


Onde a magia dos Natais de outrora
O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas
Quase gente
A mostrar-se ao espanto
Dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.

Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.

Aonde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.

Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.

Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Mas que nessa noite por magia
Transformava em cristal os vidros baços.

Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.

Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.

Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:
O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.



Soledade Martinho Costa



AQUI a biografia da autora