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domingo, 5 de setembro de 2021

NADIA ANJUMAN

 

HISTÓRIAS TRÁGICAS

Oh histórias trágicas
Encontraram uma morada em nossos corações.
Esses olhos tristes, essas bochechas fundas e amarelas
São as marcas sombrias de tua presença
Oh galhos da dor
Cem primaveras e outonos indo e vindo
Brotos murchos com corações dilacerados
Cem bloqueios e cem caravanas passam
O Faraó morre e a história de Nimrod termina
Ainda que estejas jovem e fresco
Recém saído do útero do jardim

Oh miséria ardente
Deixe a expansão de nossos corações
Não são as únicas coisas pelas quais vale a pena queimar
Por uma única vez, passe na casa de outro

Oh histórias trágicas
Sua companhia nos oprime
Se não buscam uma nova casa, devem ter cuidado
Amanhã vamos deixar as tristes ruínas da vida
E vocês ficarão miseráveis e descobertas
No limbo do tempo
Sem qualquer morada


Nádia Anjuman uma promissora poeta afegã, foi assassinada pelo seu marido aos 25 anos de idade, apenas por querer ir visitar a irmã, contra a vontade dele.

Biografia AQUI

terça-feira, 31 de agosto de 2021

MARIA HELENA BOTA GUERREIRO




DO MEU CANCIONEIRO


Ó meu barquinho veleiro
Onde levas meu sonhar?
Amor é mar traiçoeiro
E eu tenho medo do mar!

Eu julguei ver nos teus olhos
Um lago de mansas águas.
Mas foram um mar de abrolhos
Onde afoguei minhas mágoas.

Cansada, mas não vencida
Apesar de há muito andar
Sozinha no mar da vida,
contra a maré a remar!

Porque será que és medonho,
Mar, se em ti ruge a procela?
Tempestades tem a vida,
e ninguém tem medo dela.

Mar, apesar do perigo
Que nos mata  quando queres,
vale mais lutar contigo
Que aturar certas mulheres!


Maria Helena Bota Guerreiro


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

IGNEZ SABINO PINHO MAIA



Flores murchas

          (à Mariana de Almeida)

Como as flores que vivem um só dia
Ao sopro do calor da luz das salas
Frágeis desbotam as robustas galas
Perdendo bela cor que as revestia...

Assim exausta aos poucos cessa a vida
Tudo cede ao poder do permanente
Tufão, destruidor que, de repente,
Prostra a seiva do sangue amortecida.

Pois tudo que nasceu há de render-se
A essa lei fatal intransigente
Que destrói e corrompe consciente

A vida, o ar e a flor que, ao desfazer-se,
Pendendo sobre a haste agonizante,
Bem viu que a vida dura um breve instante.



- Ignez Sabino, em "Rosas pálidas: poesias". 1886.


Biografia AQUI

domingo, 15 de agosto de 2021

ADALCINDA MAGNO CAMARÃO LUXARDO


Espaço-tempo
Quero-te mesmo, amor, na ausência ou na presença,
com rumores de sombra, alarde ou desafios.
―Dormir num chão de luar à sombra de roseiras
ou sob os pirisais na baixada dos rios...

Assim te amo e te sei amando dia-a-dia,
acordada ou dormindo o germinal segredo.
E te abraço sem ter teu corpo ao meu, beijando
a saudade sem ser de quem se tem sem medo.

Amo-te mesmo, amor, no madrigal do tempo,
derrubando androceus e gineceus se amando
nas pálpebras do estio que o sono não acorda.

No teu dorso eu descanso a caminhada enorme
que fiz pra te encontrar ― lábios ardendo em busca
da tua noite azul onde minh'alma dorme.

Amo-te mesmo, amor. Se me vens ou te vais.
Sinto-te à flor da pele e à superfície da água
que dessedenta o bem que nos lava o mal.

Amo-te e não sei quem és ― teu nome nem origem.
Só sei que és homem são e me sabes mulher.
Que beleza este amor sem pranto nem vertigem,
sem princípio nem fim, nem dimensão sequer!


- Adalcinda Camarão, em "Antologia Poética". Belém: CEJUP, 1995.


Biografia AQUI