Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

Seguidores

domingo, 13 de dezembro de 2020

TERESA RITA LOPES







PRESÉPIOS


De presépios gosto

desde menina.

De construir por minhas mãos um pequenino mundo

a meu jeito.

A moda do Pai Natal só veio mais tarde

assim como a da Árvore de Natal.

Com ele nunca engracei

postiço das barbas até à barriga.

Quem trazia presentes à minha infância era o Menino Jesus

– cedo percebi que era uma maneira de dizer
como as fadas.

Como podia alguém como eu descer pela chaminé

sem se sujar nem se aleijar?!

Da Árvore de Natal só gosto por ser árvore

e verde.
(Pensar que as há de plástico!)

Hoje tenho presépios pela casa toda

todo o ano!
Que vou comprando por onde ando.

O meu Menino Jesus gosta de ser muitos

e de diferentes sítios como o Pessoa!

No Natal limito-me a atualizá-los com musgo.

E líquenes. E pinhas que trouxe ontem da Fonte do Sol.

Povoo esse mini-mundo também com conchas

que combinam com a cor do barro rosado
do presépio de Viana.

Mas do que mais gosto

é do musgo:
cheira a terra molhada
a verde
a vida.

Sorrio para o Menino (o mesmo em todos os presépios)

e digo-lhe:

Bem hajas por vires todos os anos

festejar com os homens o dia dos teus anos!
Invento para ti mundos simples e pacíficos
para eles se envergonharem das suas ambições
e guerras.

Ámen.
Teresa Rita Lopes

AQUI a biografia da autora

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

NATÁLIA CORREIA

 


Em Cruz não Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados

da infância. Intérmina, a mãe
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente.

Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia.

Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa.

Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que então havia
para a capital dos brinquedos.

E as crianças com a tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam os seus pedidos
no muro que dava para o impossível,

chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicionário
da dor futura: saudade.

Natália Correia, in 'O Dilúvio e a Pomba'

sábado, 5 de dezembro de 2020

NATÁLIA CORREIA

                              


Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia, in 'O Dilúvio e a Pomba'
 Natália Correia  já é habitual desta casa.    AQUI está a sua biografia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

GRAÇA GRÚNA






Caos climático

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar. 
 


- Graça Graúna (outubro 2009), in: LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna(...). Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 146.



Biografia e outros poemas AQUI