Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

Seguidores

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

SUSANA BUSATO








Ícaro do asfalto


se tudo ainda é pouco
se tudo ainda é lento
se tudo quanto calo raro arrebento

se tudo é partida golpe buzina
se tudo é café com pão ao meio-dia
se tudo o mais é filé com aspirina

na poça d’água do meio-fio
eu ao meio partida ouso

o impossível:

um fio de futuro na janela
entre o pôr do sol e a lua
esgarça a fina camada do dia

(e isso ainda é pouco
o mais ainda me alucina)

no vidro fosco da janela
o sorriso de Ariadne me vigia
nas suas níveas mãos a noite
e nas minhas
às minhas
expensas
apenas 
ases e copas
asas de janela
e o sol


- Susanna Busato, em "e-book". projeto Escribas do Breu. Rio Preto: SESC.


Biografia e outros poemas aqui 
 AQUI

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

GRAÇA PIRES





À entrada das palavras me detenho.


Deixo que ondule em meu olhar 

a imensa planície do passado.


Não quero falar do tempo esgotado

à míngua de tudo.


Por empenho materno adquiri

um desapego total a futilidades.

Nunca usei joias.

A minha feminilidade bastava

para me enfeitar.


A arte e a liberdade

eram as minhas pérolas

e os meus diamantes.


Lembro os momentos

encantatórios da infância,

nos fins da tarde, em que minha mãe

tocava música clássica e recitava de cor

os poetas da época, o que imprimia,

em mim, um inexplicável poder espiritual.



Graça Pires, in "Jogo sensual no chão do peito" pg 21 Editora Labirinto


Graça Pires, já  está na galeria de poetas deste blog, desde 2014. AQUI

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DARCY FRANÇA DENÓFRIO



É do outro lado...



É do outro lado
(do mistério)
que não alcançamos
que a flor responde
em toda sua grandeza.
É lá que se contorceu
e guardou a sua história
e sangrou as suas gotas
e a solidão que (sobre)carrega.

Quem olha a flor
ou um ser desabrochado
vê um prisma (feio ou lindo)
jamais o seu lado
                               inviolado.


- Darcy França Denófrio, em "Ínvio lado". Goiânia: Editora UFG, 2000.


Biografia e outros poemas AQUI

domingo, 10 de janeiro de 2021

PAULA GLENADEL



Corcéis


controlar os corcéis
da alma,
desembestados,
com mão segura
como o lastro do navio,
seu peso em areia, em ouro:

o medo dá asa a cobra
cria monstros na sombra
viaja nos desvãos
estremece os alicerces
uiva sussurrando ruínas


- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.


Biografia e outros poemas AQUI