Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

ALDA DO ESPIRITO SANTO OU ALDA GRAÇA



foto da net

Avó Mariana

Avó Mariana, lavadeira
dos brancos lá da Fazenda
chegou um dia de terras distantes
com seu pedaço de pano na cintura
e ficou.
Ficou a Avó Mariana
lavando, lavando, lá na roça
pitando seu jessu1
à porta da sanzala
lembrando a viagem dos seus campos de sisal.

Num dia sinistro
p'ra ilha distante
onde a faina de trabalho
apagou a lembrança
dos bois, nos óbitos
lá no Cubal distante.

Avó Mariana chegou
e sentou-se à porta da sanzala2
e pitou seu jessu1
lavando, lavando
numa barreira de silêncio.

Os anos escoaram
lá na terra calcinante.

- "Avó Mariana, Avó Mariana
é a hora de partir.
Vai rever teus campos extensos
de plantações sem fim".

- "Onde é terra di gente?
Velha vem, não volta mais...
Cheguei de muito longe,
anos e mais anos aqui no terreiro...
Velha tonta, já não tem terra
Vou ficar aqui, minino tonto".

Avó Mariana, pitando seu jessu1
na soleira do seu beco escuro,
conta Avó Velhinha
teu fado inglório.
Viver, vegetar
à sombra dum terreiro
tu mesmo Avó minha
não contarás a tua história.

Avó Mariana, velhinha minha,
pitando seu jessu1
na soleira da senzala
nada dirás do teu destino...
Porque cruzaste mares, avó velhinha,
e te quedaste sozinha
pitando teu jessu1?

(É nosso o solo sagrado da terra)

Biografia

Nascida a 30 de Abril de 1926 na cidade de São Tomé, Alda Graça do Espírito Santo, combatente da luta pela independência nacional, instruiu a nova geração pós independência, e pelas suas mãos de poetisa nasceram versos e rimas que sustentam o orgulho da República Democrática fundada em 1975. Uma referência nacional, que rejeita vanglórias e com humildade continua a batalhar pela conquista do progresso do país soberano.

Desde a juventude que Alda Graça do Espírito Santo vive na mesma residência na Chácara, arredores da capital São Tomé. Segundo ela só deixa aquele lugar quando for chamada para o eterno descanso no cemitério do alto São João.

Aos 83 anos, continua lúcida, inteligente, um verdadeiro depósito vivo de saber que continua alimentar gerações de são-tomenses. Foi professor da geração de são-tomenses, que gritou pela independência nacional.

Criou a primeira geração de jornalistas do país, e como poetisa imortalizou o massacre de 1953 no poema TRINDADE, que desde a independência nacional é recitado todos os anos e de forma arrepiante por uma voz feminina.

A poder poético de Alda graça está presente todos os dias, e em todos os momentos de São Tomé e Príncipe. O grito pela independência nacional, a unidade do povo no coro da esperança, é reflectido na letra do hino nacional de que ela é autora.

Membro do Governo de transição, como Ministra da Educação, Alda do Espírito Santo, foi também ministra da informação e cultura. Fez dois mandatos como Presidente da Assembleia Nacional Popular.

Criou a União dos Escritores e Artistas São-tomenses, onde continua a trabalhar na criação de novos valores para cultura literária são-tomense.

“Mataram o rio da minha cidade”, é uma obra de Alda do Espírito Santo, que desperta a atenção dos são-tomenses exactamente para a recuperação da capital e do rio que deu nome a toda a região de Água Grande.

Dados biográficos da autoria de Abel Veiga

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

EUGÉNIA TABOSA

Foto oferecida por uma amiga
Destino


No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.


Eugénia Tabosa

Biografia

Nasceu em Lisboa, e viveu cruzando o Atlântico, entre Lisboa e S. Paulo, até que em 2005 se radicou em S. Paulo .
Mulher de múltiplos talentos, é licenciada em Pintura pela Universidade de Belas Artes de Lisboa.
Professora de Educação Visual por mais de um quarto de século, trabalha também em Cerâmica e Azulejaria, e ainda restauro arqueológico.
A leitura e a escrita são paixões antigas, e AQUI pode encontrar algumas das suas obras em pintura, desenho e cerâmica.

(biografia apresentada na página da escritora AQUI

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

ZÉLIA NICOLODI



LOUCURA

Foi loucura, meu amor... Foi loucura!
Quando então afrouxamos as amarras
e caímos em tão insanas garras
dessa paixão envolvente, e sem cura...


Demos os corpos, como nunca antes
desejo algum houvesse assim pedido...
E no amor meio anjo e tão bandido,
florescemos então como amantes!


Esquecemos, além das nossas portas
um mundo que não era de nós dois,
c’os brados de censura sem perdão...


Novamente a frieza deste chão
vem nos trazer à vida sem depois...
Podando rente as nossas asas tortas.


Biografia

Nasci em Irati, cidade do interior do Paraná, Brasil.

Desde criança cultivei uma personalidade inconformada com os conceitos e preconceitos da sociedade

e a única maneira de conseguir expressar meus pensamentos, foi através da escrita.

Meu amor pela poesia é quase tão antigo quanto eu...Comecei a escrever na pré adolescência

e nunca mais parei.

Adoptei a poesia como minha terapeuta portátil.

Hoje, actuo como instrutora de Yoga, cuja filosofia adoptei integralmente.

Penso que o Yoga e a poesia andam de mãos dadas!


MATERIAL GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA, CUJO BLOGUE "MUNDO AZUL" PODEM VISITAR AQUI

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

ANGELA MELIM


foto da net

UM NAVIO

A solidão é um navio.
Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar –
a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.

Biografia

Angela Melim , nasceu em Porto Alegre em 1952, e vive no Rio de Janeiro, onde trabalha como tradutora e redactora.
Tem diversos livros publicados entre os quais :
"O vidro o nome" 1974
"Das tripas coração" 1978
"As mulheres gostam muito" 1979
"Vale o escrito" 1981
"Os caminhos do conhecer" 1981
"O outro retrato" 1982
"Poemas" 1987
"Ainda ontem" 1991
"Possibilidades" 2006
"Mais dia menos dia" 1996


Biografia composta a partir DAQUI

Sábado, 6 de Junho de 2009

ODETE COSTA SEMEDO

Bafatá , vista do rio Geba. Foto daqui


Poemar é amar o mar
Poemar é revestir o ser
Com o próprio pensamento
É trazer à superfície
O subconsciente
É ser vidente
É ser viandante
É amar a dor
E dar calor
Ao frio da noite.
Poemar é dar prazer ao ser
É estar contente
Por poder amar
E poemar é amor
Poemar é amar
Quando ao luar
O mar e a mente se entrelaçam
Quando a dor e o calor se confundem...
Poemar é amor
É amar
É mar
E é dor também

Biografia
Maria Odete da Costa Semedo nasceu em Bissau, a 7 de Novembro de 1959. Aos 18 anos iniciou as suas actividades como professora. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989/1990). Assumiu, ao regressar à Guiné-Bissau, a Coordenação Nacional do Projecto de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, financiada pela Fundação Gulbenkian. Foi Directora da Escola Normal Superior Tchico-Té; exerceu ali ao mesmo tempo suas actividades de professora. A partir de 1995 passou a desempenhar as funções de Directora Geral do Ensino. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Assumiu as funções de Ministra da Saúde e de Ministra da Cultura. Doutorou-se em Letras pela PUC Minas, Brasil.

Traduziu para crioulo o guião do filme Olhos Azuis de Yonta do cineasta Flora Gomes e participou na rodagem do mesmo filme como assistente de realização.

Participou na Anthologie de Literatures Francophones de l'Afrique de l'Ouest, Éditions Nathan, Paris, 1994.

Foi co-fundadora e é membro do Conselho de Redacção da Tcholona, Revista de Letras, Artes e Cultura.

Tem divulgado contos e poemas em jornais e revistas nacionais e estrangeiras.

1996 - livro de poemas Entre o Ser e o Amar, em Bissau.

2003 - Histórias e passadas que ouvi contar e No Fundo do Canto (edições portuguesas)

2006 - organizou a exposição Falas di Panus, em PUC Minas, onde se doutorou.


Biografia daqui

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

VERA DUARTE

Foto daqui

Ai se um dia...

Ai se em Outubro chovesse
a terra molhasse
o milho crescesse
e a fome acabasse

Ai se o homem sorrisse
a terra molhasse
a fome acabasse
e a chuva caísse

Ai se um dia...
Acordemos, camaradas,
As chuvas de Outubro não existem!
O que existe
É o suor cansado
Dos homens que querem

O que existe
É a busca constante
Do pão que abundante virá

Homens, mulheres, crianças
Na pátria livre libertada
Plantando mil milharais
Serão a chuva caindo
Na nossa terra explorada

Biografia
Vera Duarte, de seu nome completo Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina, nasceu no Mindelo, Cabo Verde, num Outubro qualquer. Ali brincou, cresceu e amou.
Depois esteve em Portugal para fazer o curso de Direito na Universidade Clássica de Lisboa e posteriormente para fazer formação na Magistratura Judicial, pelo Centro de Estudos Judiciários de Lisboa, tendo voltado a cidade da Praia, Cabo Verde, no sentido de trabalhar na justiça e como Juíza Conselheira do Supremo Tribunal da Justiça. Após se ter afastado do referido cargo assumiu a responsabilidade e honra de exercer as funções de Conselheira do Presidente da República.
Entretanto escreveu, casou-se, publicou, teve filhos e filhos dos filhos, divorciou-se e de novo se casou, viajou e participou - do coração - na vida pública do seu país. Sobretudo nas questões ligadas à mulher, cultura e aos Direitos Humanos.
Orgulha-se de ter sido galardoada em 1995 em Portugal pelo então presidente português Dr.Mário Soares com o Prémio Norte-Sul de Lisboa do Conselho da Europa, pelas suas actividades em prol dos Direitos Humanos. Sobretudo enquanto membro da Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos e da Comissão Internacional de Juristas.
Actualmente é Presidente da Associação Cabo-verdiana de Mulheres Juristas (AMJ), membro do Comité Executivo da Comissão Internacional de Juristas, além de ser membro de várias associações oriundas da sociedade civil cabo-verdiana, nomeadamente a Associação de Escritores Cabo-verdianos (AEC).
Tem como lema de vida, Liberdade, Justiça, Paz e Amor.

Biografia daqui

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

MARIA ALBERTA MENÉRES

(foto da net)

AS PEDRAS
As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres

Biografia


Nasceu em Vila Nova de Gaia em 1930. Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário (1965-1973).Trabalhou na RTP como directora do Departamento de programas Infantis e Juvenis entre 1975 e 1986. Dedicou-se à poesia e à tradução e tem colaborado com artigos de opinião em vários jornais e revistas.A par da sua actividade poética, desenvolve um importante trabalho pedagógico no âmbito da educação literária infantil, publicando vários livros para infância e juventude incluindo poesia, contos, teatro, novelas e adaptação de clássicos. A sua obra para a infância, que conta no total mais de 70 títulos, é caracterizada pelo humor e pela poesia. Como poeta é habitualmente associada a um conjunto de escritores contemporâneos do polémico surrealismo português. Fez parte da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores, de 1973 a 1975. A partir de 1973, tem dirigido vários Encontros (ao nível das Câmaras Municipais, Escolas Primárias, Preparatórias e Secundárias e Escolas Superiores de Educação, por todo o país) entre alunos, entre professores e alunos simultaneamente – Encontros cujos temas são “O Ensino e a Poesia”, “Criatividade no Ensino” e “Leituras e Escritas”. Desde 1998 é Directora da revista “Super Bebés”. Foi Assessora do Provedor de Justiça, de 1993 a 1998, como criadora e responsável pela linha telefónica grátis “Recados da Criança”.Está representada em várias antologias nacionais e estrangeiras.E, ainda em 2002, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, fez conferências sobre "Leituras e Escritas do Nosso Dia-a-dia", na intenção de uma descoberta e dinamização da Imaginação no nosso quotidiano, em 10 Câmaras Municipais, sob o título de "Re/visão da Matéria", a cerca de 200/300 Professores, em sessões de 4 horas.É cooperadora da SPA desde Outubro de 1983.

Biografia retirada da net.