domingo, 8 de Novembro de 2009

HELENA KOLODY


Sonhar


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.


Helena Kolody nasceu em 1912, em Cruz Machado, Paraná, no dia 12 de outubro. Filha de Miguel e Vitória Kolody, dois imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil.
Helena passou a infância na cidade catarinense de Três Barras, segundo uns, na cidade de Rio Negro segundo outros. Em 1926, concluiu o curso de guarda-livro e, no ano seguinte, mudou-se com a família para Curitiba, onde residiu até sua morte. Em 1928, publica seu primeiro poema, "A lágrima". Em 1931, conclui o curso da Escola Normal Secundária. No ano seguinte iniciou uma brilhante carreira no magistério, paixão que só dividiria com a poesia. Em 1941 publicou a primeira obra, "Paisagem interior", que seria seguida por outros treze títulos. Já nesta obra de estréia constavam três haikais, algo raro à época. Estava presente em seu projeto poético esta busca, como disse mais tarde, "da síntese para traduzir o pensamento". Em 2001, foi publicado o livro "Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos", pela Criar Edições, de Curitiba, Paraná (PR). Essa edição comemorou os 60 anos da publicação de seu primeiro livro.

Outras obras da escritora:

Música submersa (1945)
A sombra no rio (1951)
Vida breve (1965)
Tempo (1970)
Infinito presente (1980)
Poesia mínima (1986)
Ontem, Agora (1991)
Reika (1993)
Caixinha de música (1996)
Poemas do amor impossível (antologia - 2002)

Biografia da net

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

TERESA RITA LOPES

Foto de Luís Araújo Pinheiro

Os apanhadores de conquilhas


Uma família inteira
a apanhar conquilhas

É o pai é a mãe
é os filhos é as filhas

todos acocorados
na sôfrega função

O gotejar do tempo
é coisa que angustia

se não conduz a nada
se não enche vasilha

por isso esta família
sente que cumpre o dia

se ouvir dentro do plástico
o gluglu da conquilha

E eu que sempre apanhei
conchas mas sem miolo

neste imenso areal
desde os confins da infância

tenho que me render
ao triste desconsolo:

até estas gaivotas
só andam à ganância:

cada vez que mergulham
trazem peixe no bico!

E pensar que cantei
a esbelta liberdade

de suas brancas asas!
Por hoje aqui me fico

sofrendo em solidão
esta crua verdade:

Não há gestos gratuitos
por mais que diga ou faça

famílias ou gaivotas
a cada um seu isco

em serviço ou em férias
nenhum voo é de graça

só entendem o mar
se produzir marisco

Mas e eu que faço eu
a pé por estas ilhas

com ar de quem levou
uma pedrada na asa

senão catar também
umas tristes conquilhas

estas rimas forçadas
que vou levar para casa?!

Teresa Rita Lopes


Biografia


Nasceu em Faro, em 1937. Viveu 13 anos em Paris onde foi professora na Sorbonne e defendeu a tese de doutoramento "Fernando Pessoa et le drame symboliste – héritage et création". É professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa.

Teresa Rita Lopes é um dos maiores especialistas contemporâneos em Fernando Pessoa, tendo centrado o seu trabalho académico na obra deste poeta e dedicando-se especialmente à divulgação da parte inédita da sua obra.

Dirige um grupo de investigadores que produziu várias obras, nomeadamente um guia de Lisboa, escrito por Pessoa, com traduções em várias línguas (espanhol, francês, italiano e duas em alemão).

Das obras produzidas individualmente em português destaca-se Pessoa por conhecer (2 volumes, mais de 400 inéditos) e uma edição crítica: Álvaro de Campos – Livro de Versos (mais de 80 poemas inéditos).

Organizou várias exposições sobre Fernando Pessoa, em Espanha (inauguração em Madrid, itinerante por toda a Espanha), no Brasil (inaugurada em S. Paulo, depois itinerante) e em França (Paris, Centre Pompidou – Beaubourg).

Tem-se dedicado à obra de Miguel Torga, sobre a qual tem vários ensaios. Tem além disso colaborado regularmente em várias publicações literárias portuguesas e estrangeiras, quer no domínio do ensaio, quer da poesia.

Dedica-se à poesia, tendo três livros publicados e, regularmente, a teatro.

Tem peças publicadas e representadas em Portugal e no estrangeiro: França, Bélgica, Itália, Roménia, Alemanha. A sua peça Se Mentes (Wenn du lügst – Samen) foi escolhida para representar Portugal no Festival de Autores de Teatro na Bonner Biennale 94 – e posteriormente representada em Munique e em Roma.

Dona de vasta obra em vários campos, que poderá consultar no site de onde retirei a biografia.

Biografia retirada DAQUI

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

LUÍSA AZEVEDO

RASGOS DE LOUCURA

Apetece-me correr. correr,
num grito desvairado. assustar medos.
não parar. castigar o corpo. martirizá-lo,
até à exaustão. apetece-me correr, correr, correr...
acabaria num choro,
prostrada no chão. sem forças.
cada passada seria um grito mudo... porque me apetece gritar.
cada passada seria um desabafo... porque me apetece desabafar.
deste fogo... que não consigo apagar.
tu. que me queimas.
importa se não é o que queres?! é o que sinto.
como esta vontade enorme de gritar.

a noite não me traz a calma do sono.
o descanso dos pensamentos.
a noite nada me traz a não ser eu mesma... outra vez!
num corropio de ideias sem nexo. electrizantes.
uma mistura de frases incompreensíveis. como tu.
um desassossego que acabaria no fundo de um abismo. numa opção de paz eterna.
eu corro. Desmedidamente, desvairadamente, ofegantemente, exaustivamente, loucamente, arrebatadamente... para calar os gritos.
e não calo!
o nó que trago na garganta não se desaperta. prende-se, a cada grito. mais!
afogo-me no ar que respiro. sufoco no excesso de luz que me persegue.
apetece-me correr. correr, correr, correr... apetece-me não parar até o meu corpo rebentar.

Luísa Azevedo


Biografia
Luísa Azevedo nasceu em Lisboa, a 2 de Setembro de 1964 e vive no Porto desde 1972.
Licenciada em Engenharia Têxtil pela Universidade do Minho, gere desde 1990 uma empresa de mobiliário e decoração.
Publicou em Dezembro de 2008 o livro infantil de poesia "Faz de conta...és poeta!" que ilustrou com o seu filho mais velho.
Participou em Julho de 2009 no 2º volume da antologia de poesia "Entre o sono e o sonho".
Acaba de sair o seu livro "pin uma explicação de ternura" da editora Edita_me.
Que a autora apresenta assim.
"Pin Uma explicação de ternura Ternura (muita), e as palavras que dela nasceram... momentos (muitos) que explica no bater do coração e no brilho do olhar. Ternura... este livro é apenas uma das suas muitas explicações.

Nasci de mão dada com a ternura, com ela cresci, me fiz gente. Aprendi a acarinhá-la, a guardá-la entre os dedos. Semeio-a, com a ajuda do vento. Sacio-lhe a sede, com lágrimas doces. Vejo-a tornar-se maior sem sobejar. Bebo de toda a que me oferecem e entrego-a, na mão de quem a queira de mim beber. Este livro reflecte o que hoje sou. Espero que possa transmitir-vos a serenidade e a ternura que sinto quando escrevo."
A autora tem um blogue que pode visitar AQUI

domingo, 11 de Outubro de 2009

ANA MARQUES GASTÂO


Vens de noite no sonho


Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.

Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.

Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.

A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.

Ana Marques Gastão

Biografia

Ana Marques Gastão (nascida em 1962, Lisboa, Portugal) é poeta, redactora cultural do Diário de Notícias e crítica literária. Neste jornal exerce funções, desde 1989, na secção “Artes”, tendo colaborado regularmente na página "Livros" e no suplemento DNA. Advogada, licenciou-se na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Publicou Tempo de Morrer, Tempo para Viver (1998), Terra sem Mãe (2000), Três Vezes Deus, em co-autoria com António Rego Chaves e Armando Silva Carvalho (2001), e Nocturnos (2002). Integra várias antologias e representou Portugal em diversos eventos internacionais. Tem editada no Brasil uma antologia pessoal, intitulada A Definição da Noite (Escrituras, 2003).

Biografia DAQUI

domingo, 4 de Outubro de 2009

AMÁLIA RODRIGUES



foto DAQUI

LÁGRIMA
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar

Amália Rodrigues

Biografia
Amália da Piedade Rodrigues nasceu em 1920, em Lisboa, filha de pais naturais da Beira Baixa. A data certa do nascimento é desconhecida: em documentos oficiais nasceu a 23 de Julho, mas Amália sempre considerou que nasceu no primeiro dia desse mês. Educada pela avó, cantou pela primeira vez em público em 1929 numa festa da Escola Primária da Tapada da Ajuda, que frequentava. Mais tarde trabalhou como bordadeira. Em 1933, empregou-se numa fábrica de bolos e rebuçados em Lisboa e dois anos mais tarde, com a irmã Celeste, trabalhou numa loja de souvenirs no Cais da Rocha, acompanhada pela mãe, vendedora de fruta. Poderá encontrar uma biografia completa AQUI



A fazer 10 anos do seu desaparecimento, esta é a minha homenagem a essa grande senhora que para além de cantar como os deuses também escreveu belos poemas.

domingo, 27 de Setembro de 2009

AMÉLIA DALOMBA

Foto de um quadro do pintor angolano Eleuterio Sanches retirada DAQUI

HERANÇA DE MORTE

Lírios em mãos de carrascos

Pombal à porta de ladrões

Filho de mulher à boca do lixo

Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas

Assim construímos África nos cursos de herança e morte

Quando a crosta romper os beiços da terra

O vento ditará a sentença aos deserdados

Um feixe de luz constante na paginação da história

Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança



Amélia Dalomba


Biogradia



Amélia Dalomba, nasceu em Cabinda aos 23 de Novembro de 1961. Tem exercido actividades profissionais em diversas áreas do jornalismo, nomeadamente radiofónico e de imprensa. Publicou poemas e artigos no Jornal de Angola. Presentemente prossegue os estudos superiores de Psicologia.

É uma das poucas vozes femininas que no nosso meio literário demonstra um relevante interesse em trazer contribuições novas para a poesia angolana. A sua dicção poética insere-se, até este momento, numa das correntes visíveis entre os autores da Geração das Incertezas, a chamada Geração de 80.

Tal tendência ou corrente manifesta-se através de um ostensivo tratamento estético da relação que se estabelece entre o homem e a mulher. Nota-se o recurso a um despojamento vocabular denso do ponto de vista semântico, resultando daí aquilo a que poderia denominar uma poética corporal.

Sobre a poesia desta autora, Manuel Rui diz: " No sentir, o laboratório dos sentidos para escrita, percebe-se à primeira vista, que é mesmo feminino".

Amélia Dalomba é membro da União dos Escritores Angolanos em cujos corpos gerentes tem ocupado diversos cargos. Publicou: Ânsia (1995) e Sacrossanto Refúgio (1996)

Biografia DAQUI

domingo, 20 de Setembro de 2009

GABRIELA MISTRAL


imagem da net

VERGONHA

Se tu me olhas, eu me torno formosa

como a erva a quem desceu o orvalho,

e desconhecerão minha face gloriosa

as altas canas quando baixe o rio.

Tenho vergonha de minha boca triste,

de minha voz rota, de meus joelhos rudes;

agora que me olhaste e que vieste,

me percebi pobre e me toquei desnuda.

Nenhuma pedra no caminho achaste

mais despida de luz na alvorada

que esta mulher a quem levantaste,

porque ouviste seu canto, o olhar.

Eu me calarei para que não conheçam

minha ventura os que passam pelo campo,

no fulgor que há em minha face tosca

e no tremor que há em minha mão...

É noite e desce à erva o orvalho;

olha-me fundo e fala-me com ternura,

que de manhã, ao descer ao rio

a que beijaste levará formosura!

Gabriela Mistral


Biografia

Gabriela Mistral foi o pseudónimo escolhido por Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de Abril de 1889 - Nova Iorque, 10 de Janeiro de 1957). Poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 1945. Os temas centrais nos seus poemas são o amor, o amor de mãe, memórias pessoais dolorosas e mágoa e recuperação. Lucíla nasceu na cidade de Vicuña, Chile, em 7 de Abril de 1889. Seu pai abandonou a família quando Lucíla completou três anos de idade. A mãe de Lucila faleceu no ano de 1929 e a escritora lhe dedicou a primeira parte de seu livro Tala, a que chamou: Muerte de mi Madre. Educada em sua cidade natal, começou a trabalhar como professora primária (1904) e ganhou renome ao vencer os Juegos Florales de Santiago (1914) com Sonetos de La muerte, sob o pseudónimo de Gabriela Mistral,cuja escolha deu-se em homenagem aos seus poetas predilectos: o italiano Gabriele D'Annunzio e o provençal Frédéric Mistral.

Em 1922 é convidada pelo Ministério da Educação do México a trabalhar nos planos de reforma educacional daquele país. O Prémio Nobel transformou-a em figura de destaque na literatura internacional e a levou a viajar por todo o mundo e representar seu país em comissões culturais das Nações Unidas, até falecer em Hempstead, estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

A notoriedade a obrigou a abandonar o ensino para desempenhar diversos cargos diplomáticos na Europa. Tida como um exemplo de honestidade moral e intelectual e movida por um profundo sentimento religioso, a tragédia do suicídio do noivo (1907) marcou toda a sua poesia com um forte sentimento de carinho maternal, principalmente nos seus poemas em relação às crianças. Em sua obra aparecem como temas recorrentes: o amor pelos humildes, um interesse mais amplo por toda a humanidade.


Biografia DAQUI



À MARGEM:

PARA QUEM VIVE NO PORTO OU PERTO, NÃO ESQUECER HOJE O LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DA PIN ÀS 16 HORAS NO ATENEU COMERCIAL DO PORTO.

TAMBÉM PARA AQUELES QUE APENAS TOMARAM CONHECIMENTO COM A POESIA DE TÂNIA TOMÉ ATRAVÉS DESTE ESPAÇO, INFORMO QUE A AUTORA POSSUI DOIS ESPAÇOS ONDE PODE CONHECÊ-LA MELHOR BEM COMO À SUA OBRA.

AQUI

E

AQUI


VÃO ATÉ LÁ E NÃO SE ARREPENDERÃO

UMA BOA SEMANA A TODOS