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segunda-feira, 23 de maio de 2016

VIRGÍNIA VITORINO

Quando te vi

A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passaste.
Abriu mais uma flor em cada haste.
Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.

E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei... Olhaste...
E nunca mais te vi. . . - Raro contraste! –
A madrugada transformou-se em poente.

Luz que nasceu e apenas cintilou!
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda...

E há tanto sol dourando esses trigais!
Olhaste, olhei, fugiste... Ai, nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda!



Biografia  AQUI

sábado, 14 de maio de 2016

MARIA DO SAMEIRO BARROSO



As vindimas da noite

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite onde se despenham as ravinas,
o corpo insidioso arrastando o mar, a boca,
os joelhos sonâmbulos,
os barcos que se cobrem de limos, grãos de areia,
esquecimento.

As harpas do horizonte ergueram-se já,
como árvores frondosas.
Nas colmeias de sangue, fervilha a rosa,
a corola verde, o tumultuoso nome,
o timbre infinito.

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite,
no vazio errante de um coração silábico
que se abre, suspenso,
por dentro das estrelas, à deriva.

No vazio leve das miragens, esconde-se,
nas vindimas da noite,
o corpo dormente da eternidade que rebenta,
silenciosa,
nos punhais ébrios de salsa, cinza,
aspergindo, na névoa minuciosa,
o ruir das telhas, entre ervas, dedos,
acariciados lentamente.




Biografia  e mais poemas AQUI

sábado, 30 de abril de 2016

LOUCA PERIGOSA

                      foto de Jorge Bispo


Louca Perigosa

Deixem-me ir para a rua
quero gritar
chorar
cantar.
Quero levantar bem alto
a bandeira
do desespero.

Quero rir-me de ti
de mim
de todos nós.
Quero que os bandidos
chorem
a dor
e a vergonha
de o serem.

Quero dar pão
A quem tem fome
e dar água aos sedentos.
Quero dar amor
carinho
ternura
a quem vive só.

Quero sofrer com o presidiário
e sorrir feliz com os noivos.
Quero dar um lar aos órfãos
E trabalho a quem o procura.
Quero que todos os políticos
unam esforços
numa aliança firme
por um mundo melhor.

Quero acabar com o terrorismo
e as penas de morte.
Quero acabar com a fome
a poluição,
e a guerra.

Deixem-me ir para a rua
Deixem-me erguer bem alto
a minha bandeira.
E escrevam depois nos jornais
Que anda por aí à solta
Uma louca perigosa.

Elvira Carvalho 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ERMELINDA DUARTE


Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.
Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.

Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.

Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".

Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.

Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

Cantora compositora, Ermelinda fez grande sucesso com esta canção no pós 25 de Abril.
Depois parece ter preferido o anonimato e ter-se dedicado à dobragem de filmes e séries.

terça-feira, 19 de abril de 2016

ANA PINTO





                                       foto do Google



ESTRANHO OFÍCIO

Estranho ofício este

navegar

o rio da palavra portentosa

pelas frestas deslumbradas

dos olhos. Ser nau

soçobrada no muro, rede na areia

pura, ouro decantado

da sombra. Sabemos

dos fogos altos, da luz arremetida

à órbita dos braços, do poder da raiz.

Dos leitos fechados do tempo

que gritam êxtases.


As palavras que escrevo

tocam mãos em outras mãos,

quando de meus dedos transborda a espuma.

Desço em ti, fonte luminosa,

maresia, fio inacessível, 

nocturno espelho

do encontro

És a viagem alva dos crescentes

com o sangue da lua ainda fixo no ocaso.

Mordem-se espelhos

Seremos mar

nas noites, seremos

dança,

o diamante que se verte no recesso curvo,

o verso líquido


O mar chove-nos o sal todo:

sou uma partícula de luz

agarrada à pele da tua garganta





Biografia AQUI


sábado, 16 de abril de 2016

ALICE SPÍNDOLA



                                            foto do Google






Vaso a verdade
vertente de tudo
vinda de longe
trazendo prelúdios
de canção inédita.
Vazo a verdade
vinda de perto
em vôo visível
de sonho modesto
no vértice vivo.
Vazo canção isolada…
sozinha no tempo.
METÁFORA ANTIGA
O artesão da palavra
faz paragem no tempo,
com talento, tela e fios
faz também surgir tramas e teias,
viaja   e busca no íntimo,
melodia e tijolo antigo
que completam o sonho.
PÁSSARO DE FOGO
Trovão, fogo,
fanfarra
assustam o pássaro,
que pernoita
no alçapão.
Chuva miúda
faz festa
para o pássaro
sair do silêncio.
O pássaro voa
e expande silêncios,
esconde esperança.
Metamorfose
de pássaro de fogo.


Biografia  AQUI
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