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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ALDA LARA






                                                               (Imagem de Sergio Afonso)




PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos

de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!

Benguela 1953



ALDA LARA (Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973
Paulo de Carvalho imortalizou o seu poema, "PRELÚDIO"

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

SONHANDO O NATAL




Sonhando o Natal




Se eu pudesse…
Por um dia ser o bom velhinho
Mensageiro de Deus repartindo carinho
Com certeza
Exterminaria a pobreza
Caminharia por todas as favelas,
Adentraria às vielas,
Levando alegria,
Secando lágrimas,
Matando a fome que mata,
Transformando míseros barracos
Em lares decentes
Num gesto de amor!
Levaria o sonhado presente
Entregaria a cada criança
Triste, sem esperança,
Rosto pálido,
Sonhos murchos
Como a flor que não vingou
No árido chão
No descaso do próprio torrão.
Construiria escolas decentes
Preencheria o vazio latente
De cada coração!
Estenderia a mão em amizade
Conferindo solidariedade,
Segurança num futuro melhor,
Uma auto-estima maior.
Ofereceria educação
E com uma varinha de condão
Extinguiria a violência,
Transformaria balas perdidas
Em rosas, miosótis, hortênsias…
Dando cor ao negro da dor!

As favelas seriam imensos jardins,

As casas iluminadas,
Cirandas nas calçadas
Amor aproximando os afins…

Em cada uma delas

Substituiria as vazias panelas
Por uma substancial ceia de natal
Pois afinal
Num mundo tão desigual
Todos têm os mesmos direitos…
Merecem o mesmo respeito…
Têm o direito de serem felizes
Sonhando em matizes!

Mas como não sou o bom velhinho

Não sou mágico, nem adivinho…
Peço ao mundo perdão
Por só alcançar com minha pequena mão
Aos que estão próximos a mim.


Carmen Vervloet


AQUI  o blogue da autora


Durante todo este mês vou tentar postar poemas de Natal.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


 UM DIA


Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.








Sophia de Mello Breyner Andersen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919. Se fosse viva faria hoje 95 anos. Para assinalar a data, a Porto Editora, vai reeditar o livro de poesia "Dual" e o conto "A noite de Natal".  

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CLAU ASSI


                                                                          foto Daqui




SARAU
Num tempo de breu
de braços estendidos
dor intensa
a vida soluçou-me
saudade imensa
ecoou-me.
Rígida e fria
qual tampo de mármore.

Poesia bendita
que em rimas suaves
sonho acordou
corpo e alma juntou.

Repara, vê!
Sob seu laço estreito
eu e você
atados num abraço
formamos o infinito
e recebemos a vida
de braços estendidos
soluçando amor.






AQUI encontra tudo sobre a autora. Biografia, poemas, livros publicados, prémios etc





quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA






Tempo





Crianças gritam abismos,
mas o tempo é medido
nas cordas do vento.
A passagem eterniza-se
nas cores do olhar.
Voam lírios, madressilvas...
E dançam ao sol, ao vento,
à chuva...
O silêncio acalma os tempos,
de sonhos despertos, incompletos,
de folhas de jasmim.
Corações presos somente
pelas linhas do tempo
e pela sombra que tece o ser
que não é.
Elas buscam um céu, nuvens.
Mas o sol derrete estrelas,
que se apagam na memória.
O lapso do tempo é curto,
sem volta.
E elas olham para ele
como para as ondas do mar.



Biografia

Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro. É agente de leitura, tutora de ensino superior, poeta, contista, cronista, ensaísta. Publicou o livro de crítica literária Literatura, mito e identidade nacional, pela Ômega Editora, em 2008. Tem vários ensaios literários publicados em revistas acadêmicas e livros. Participou da Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas, em 2011. Tem dois livros de poesia publicados pela Editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel” (2011).  Pode encontrar a poetisa  no facebook


Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br

domingo, 12 de outubro de 2014

ISABEL MORAIS RIBEIRO FONSECA


EU NÃO SOU O TEMPO

Eu não sou o tempo....
Mas eu sei que vai chover
Sinto-me bem quando fico contigo....
Para viver o dia a dia.....
Vejo-te à minha frente....
Num caminho de lama e chuva....
Um caminho que eu espero de felicidade...
Mas eu perco-me no meio de palavras....
Um sonho não basta....
Preciso de de ti meu amor ...
Que me afastes, da ilusão e da incerteza...
Tenho de acreditar e confiar nos meus instintos..
Deste nevoeiro que é a minha vida.....
Amar-te como ninguém já amou....
Como se fosses uma parte de mim.....
Até desconhecer quem eu sou.....
Encontrar-te como ninguém te encontrou.....
Amar-te entre as flores do meu jardim....
Colher as mais belas e perfumadas.....
Sentir o jasmim dos teus beijos....
Simplesmente querer amar...
Amor é palavra estranha.....
Que rima com dor e saudade...
Arde como a lenha numa fogueira !




Isabel Morais Ribeiro Fonseca



Biografia: AQUI  encontrarão a biografia e obra da autora.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

AGLAIA SOUZA


                 


                  CANTARIA




Estou indo bem mais velha:

Maranhão me envelheceu.



Suas ruas, suas casas,

onde o passado ainda mora,

criaram raízes, lianas,

azulejaram as paredes,

ruíram caibros e tetos,

musgos nasceram nos becos.



Estou levando comigo

Maranhão feito em pedaços.



Suas pedras, suas portas,

seus licores, suas frutas,

camarões, peixes enormes,

a fala mansa, sem pressa,

os livros (tantos poetas!),

seus rios cheirando a mar.



Estou indo assim saudosa

do tempo do Maranhão.





Biografia AQUI



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