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terça-feira, 4 de agosto de 2020

ANNITA COSTA MALUFE




Nêsperas
O que foi que aconteceu connosco? 
O que é 
que agora 
tão distantes
miramos neste casto horizonte
nesperado
que montanhas foram estas que cruzamos
quais foram os andaimes
quais os versos que nos mantêm tão perto
como se os raios de sol no apogeu
pudessem ser capturados
por um instante
só por um
instante
paro
e retomo as pastas de papéis coloridos
de papéis passados 
e retomo os panos os enganos
(Poderíamos ter sido 
algo 
e não fomos? 
Poderíamos? 
O que poderíamos tanto? 
O que tanto quisemos juntas?)
Paro 
um instante
diante de teu armazém
e contemplo as rugas de um tempo
imenso
esse que nunca é nosso
e torço para que possamos sempre
nos encontrar aí
neste puro instante sem ponteiros
que tão poucos 
- tão poucos mesmo - 
sabem onde fica





- Annita Costa Malufe, em "Fundos para dia de chuva". Rio de Janeiro: 7Letras, 2004. 



Biografia e outros poemas AQUI

terça-feira, 28 de julho de 2020

ANA MARIA MARQUES




Barcos de papel


Os poemas em geral são feitos de palavras
no papel
seria melhor se fossem de pano
porque poderiam tomar chuva
ou de madeira
porque sustentariam uma casa
mas em geral são feitos de palavras
no papel
e por isso servem para poucas coisas
entre as quais não se encontra
tomar chuva
ou sustentar uma casa.

Dobrados sobre si mesmos,
lançam-se no mundo
com a coragem suicida
dos barcos de papel.



- Ana Martins Marques, em "A vida submarina". Belo Horizonte: Scriptum, 200



Biografia AQUI

sábado, 18 de julho de 2020

LARA DE LEMOS


Cantilena nordestina

Um dois

canga no lombo
carga de boi

Três quatro

quatro meninos
no quadro do quarto.

Cinco seis

na cova a miséria
cem anjos fez

Sete oito

nem pão nem farinha
café sem biscoito

Oito nove

nem verde nem planta
a chuva não chove.

Nove dez

ninguém se incomoda
pobre tu és.


- Lara de Lemos, em "Palavravara". Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986, p. 96.


Biografia AQUI

segunda-feira, 13 de julho de 2020

FRANCISCA JÚLIA




 Imagem "A leitora de Pierre-Auguste  Renoir
Museu da Belas-Artes de Houston



A um poeta

Poeta, quando te leio, a angústia dolorida
Que te mina a existência e que em teu peito impera,
Faz-me também sofrer, d´alma se me apodera,
Como se da minh´alma ela fosse nascida.

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,
Ora a mágoa que habita em tua alma, -- guarida
Onde a negra legião das mágoas se aglomera.

Não há nos versos teus um sentimento alheio
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas;
Há neles ora o suave e módulo gorjeio

Das aves, ora a queixa harmônica das águas...
Leio os teus versos; e, em minh´alma, quando os leio,
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...


- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.



Biografia AQUI