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terça-feira, 30 de setembro de 2008

CORA CORALINA


Foto da net.

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...


Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.


Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.


Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.


Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.


Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.

Cora coralina

Cora Coralina (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás, Brasil. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)." Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais, tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte" é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu", em 1997 e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

SÃO BANZA

GUERREIROS

Somos guerreiros
Vindos de outras eras
Mas nem por dentro
De todos os tempos
Vencemos
As nossas guerrras.


São Banza

Residente no Lavradio, Maria da Conceição Banza, a São Banza que muitos conhecem da Blogosfera, é uma poet(is)a com uma vasta obra, embora apenas um livro publicado.
Ligada ao ensino, São Banza, participou na revista "O Professor" da Editorial Caminho.
Participou em alguns livros de poesia com outros poetas, nomeadamente o Fingidor 1 Colecção Salamandra, e Fingidor 2 , também da mesma colecção. Participou de várias outras poblicações, nomeadamente jornais e revistas. A 8 de Dezembro de 2004 saíu o seu único livro individual de poesia "Em Ouro Crú" que abre com o poema acima publicado.
Resultou essa poblicação de uma homenagem de que foi objecto por parte da S.F.A.L., da Junta de Freguesia do Lavradio e da Câmara Municipal do Barreiro.
É prefácionado por João Carlos Pereira, e ilustrado por Kátia K., Zilda D. e Manuel Antunes.


São Banza utiliza também o pseudónimo de Ariel Alány.

Ainda de "Em Ouro Crú" este poema

LEGADO

Tenho gelo a crescer
Por dentro das veias
E pesado manto
Sobre os ombros:
Não desconheço
Que a minha barca
Começa a sulcar
Os atalhos
Da mais longa viagem.

Sem ignorar os sinais
Lego como herança
A certa certeza
De que só o amor
Liberta e dá voz
À divindade
Dentro de nós!

São Banza é hoje aniversariante. Para ela os meus sinceros parabéns. E o desejo de que consiga em breve, a publicação de novo livro, e também a reedição do "Em Ouro Crú" há muito esgotado.

ROSAS PARA SI. PARABÉNS. UM DIA MUITO FELIZ.

http://saobanza.blogspot.com/

terça-feira, 16 de setembro de 2008

MARIA TERESA HORTA

foto da net

Desperta-me de noite

Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua lingua
Em sua teia
É vicio as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vais descobrindo vales.

Maria Teresa Horta


Biografia
Escritora portuguesa, natural de Lisboa. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, enveredando depois pela carreira jornalística. Dirigiu o ABC Cine-Clube e fez parte do grupo Poesia 61. Colaborou em jornais e revistas (Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal de Letras e Artes, Hidra 1, entre outros) e foi chefe de redacção da revista Mulheres. Feminista, publicou, com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, as Novas Cartas Portuguesas (1971), cujo conteúdo levou as autoras a tribunal. A sua obra encontra-se marcada por uma forte tendência de experimentação e exploração das potencialidades da linguagem, numa escrita impetuosa e frequentemente sensual. Estreou-se com a obra poética Espelho Inicial (1960), a que se seguiram, Tatuagem (1961), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Amor Habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de Inverno (1966), Cronista Não é Recado (1967), Minha Senhora de Mim (1971), Poesia Completa (1983, dois volumes), e as obras de ficção Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ana (1975), A Educação Sentimental (1975), Os Anjos (1983), Ema (1984), O Transfer (1984), Rosa Sangrenta (1987), Antologia Política (1994), A Paixão Segundo Constança H. (1994) e O Destino (1997). Em 1999, lançou a obra A Mãe na Literatura Portuguesa, constituída por uma longa introdução da autora, depoimentos de várias individualidades, uma antologia de poesia e prosa de escritores portugueses e no fim um conjunto de quadras e provérbios, tudo em torno da temática da mãe. Em 2001, publica Minha Senhora de Mim

biografia da net

Biografia da net

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

BLOGAGEM COLECTIVA

Justiça para Flávia. A história que muitos de vós conhecem é uma situação de injustiça gritante, que revolta qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade.Flávia era uma menina linda, alegre e feliz como a maioria das crianças na sua idade. Um belo dia em que tomava banho na piscina os seus cabelos foram sugados pelo sistema de sucção da piscina, e desse acidente resultou a sua morte para uma vida normal, pois desde essa altura que está em coma vigil.

Desde essa data a mãe de Flávia D. Odele Sousa empreendeu na justiça uma luta que se tem revelado gigantesca, contra o

"CONDOMÍNIO JARDIM DA JURITI - Av.Juriti,541 - Moema - São Paulo, Substituiu - sem orientação técnica - o equipamento de sucção da piscina. O motor de potência de 0,50 cavalos foi substituído por outro de 1,50 cavalos com potência superior em 78% o que deixou o equipamento superdimensionado e fora dos padrões de segurança, conforme perícia técnica anexada aos autos do processo de Flavia.

JACUZZI DO BRASIL – fabricante que vendeu o ralo sem orientação técnica quanto à correta relação de proporção entre o equipamento de sucção e o tamanho da piscina onde foi instalado.

.AGF BRASIL SEGUROS. – Seguradora do Condomínio.Não pagou, quando por mim solicitada, o seguro de responsabilidade civil existente no condomínio, vindo a fazê-lo 1 ano e 11 meses após, mediante ordem judicial mas sem juros nem correção monetária"

A luta desta mãe-coragem na Justiça, pela condenação destas empresas, tem dois objectivos. Receber a indemnização que não pagando a vida da Flávia, pode ajudar a dar-lhe uma existência , com a melhor qualidade adequada ao estado da filha, e todos sabemos que é muito difícil e caro tratar de um doente como é Flávia, mas também fazer com que as empresas sejam mais responsáveis , para que não aconteçam outros casos como o de sua filha.

Nota, o texto entre aspas, é de autoria de D. Odele.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

ANA PAULA TAVARES


Canto de nascimento

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças de leite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.
Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio

enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.


Biografia

Nasceu no Lubango, Huíla, Sul de Angola, em 1952. É historiadora, tendo obtido o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A autora vem atuando em várias atividades ligadas à literatura e à história africana. Foi membro do júri do Prêmio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985. Em 1999, publicou vários estudos sobre a história de Angola na revista "Fontes & Estudos", de Luanda.

Obra poética:
Ritos de Passagem, 1985, Luanda, União dos Escritores Angolanos;

O Lago da Lua, 1999, Lisboa, Editorial Caminho.

Dizes-me coisas amargas como os frutos, 2001, Lisboa, Editorial Caminho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

MARIA MAMEDE


A MINHA CIDADE


A minha cidade não se chama Lisboa,
não tem cheiro a sul
e nem por ela passa o Tejo,
mas como ela, tem Nascentes
leitosos e marmóreos...
Na minha cidade os Poentes são de ouro
sobre o Douro e o mar
e só ela tem a luz do entardecer
a enfeitar o granito...
Na minha cidade, tal como em Lisboa
há gaivotas e maresia
mas não há cacilheiros no rio
há rabelos
transportando nectar e almas...
Da minha cidade nasce o Norte
alcantilado, insubmisso
e o sol, quando chega, penetra-a
delicadamente, carinhosamente,
depois de vencido o nevoeiro...
Na minha cidade também há pregões,
gatos, pombas, castanhas assadas e iscas
e fado pelas vielas, pendurado com molas,
como roupa a secar nos arames...
A minha cidade tem também tardes languescentes,
coretos nas praças
velhos jogando cartas em mesas de jardim
e o revivalismo de viuvas e solteironas
passeando de eléctrico...
É bem verdade que na minha cidade
a luz, não é como a de Lisboa
mas a luz da minha cidade
é um frémito de amor do astro-rei
a beijá-la na fronte, cada manhã!...

Maria Mamede



MARIA MAMEDE - pseudónimo literário de Maria do Céu Silva Fernandes
Nasceu em 1947, na aldeia (hoje cidade) de S.Mamede de Infesta
Vive na Maia.


Livros Editados

POESIA

Desencontro - 1977
Uma Mão Cheia de Nada - 1978
Palavras Gastas - 1994
Retratos - 2000
Pelas Letras do Alfabeto - 2001
Banalidades - 2003
Poemas Maiatos - 2004
Lume - 2006


CONTOS

Memórias da Minha Gente - 2004



COLECTÂNEAS

Além do Arco Íris - 1989
Noites de Poesia em Vermoim - 2005
O Porto em Poesia - 2005
DezSete - 2007
Antologia de Natal - 2007

Biografia cedida pela própria autora, que poderão visitar e conhecer melhor no seu blog http://noceuenaterra.blogspot.com/

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