Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

Seguidores

domingo, 16 de junho de 2024

GIOVANNA POLLAROLO

 




FAÇO DE CONTAS QUE DURMO
a cada noite
rezo para que ele chegue mais tarde
e não me toque
há anos que odeio seu cheiro, as pontas de seu bigode
seus arquejos
o rosto
a baba, o suor
fecho os olhos até que acabe
dura pouco porém demasiado
mal me dá tempo para pensar
no fio de uma faca.


Biografia AQUI

domingo, 9 de junho de 2024

ROSA ALICE BRANCO -RETRATO PUÍDO NAS ENTRANHAS



 RETRATO PUÍDO NAS ENTRANHAS


Palmeiras inclinadas. Ao longe o casario.
É na água que o vejo, que sinto a cidade acordar.
Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas,
os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto,
mas do outro lado as mulheres não reflectem
o rosto ou mesmo a sua ausência.
São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão,
na curva da noite para o marido. Gastos os sonhos por usar.
Descorado pano que ficou ao sol. Nelas a cidade não acorda,
não regressam os barcos à tardinha.
Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável,
a raiva cega e às vezes um sorriso que sacode os ombros
porque até a tristeza tem um custo, uma esperança
na sola do sapato. Vejo-as todos os dias e é como se a vida
me atasse os pés, me anelasse os dedos. Como eu,
outras mulheres olhando o rio, desbordando o pano,
descozendo a sopa. Ama-se o homem que vira a esquina
connosco e sabe que não podemos fingir que a ferida
está fechada. As casas acendem.
É na água que vejo a sua luz descendo o rio.
As mulheres passam em silêncio para as casas,
atravessam a pele – deixam um retracto puído nas entranhas.
Olho o rio e não sei fingir que finjo tanto mar.



Biografia AQUI

sábado, 1 de junho de 2024

FÁTIMA LANGA - CRIANÇA






Criança

 Tu ! Que a ninguém pediste para vir ao mundo.

Tu! Que és o fruto daquele grande amor!
Daquele amor que leigos e jurados testemunharam
Daquele amor fogoso, de muita mentira
Daquele amor selvagem
Daquela violência que marcou tua mãe para todo o sempre
Por tudo isso, criança
Muito amor e muita rejeição te marcam.
Então não vejo?
Vejo sim criança!
Vejo quando divagas com a manada à procura de pasto.
Chova, troveje ou debaixo do sol árido estás ali!
Vejo nas grandes escolas lá da cidade alta
Quando logo pela manhã, bem equipado, o carro te deixa à porta do colégio
Quando desces do Chapa e cuidadosamente atravessas as largas Avenidas
Quando te metes naquela modesta rua a caminho da escola
Quando com camisola e sapatilhas rotas lutas por vencer a pobreza
Quando passo por ti ali no passeio encostado à padaria com uma bacia
vendendo badjias
Quando com uma caixa de papelão repleta de quinquilharias interpelas a todos
Tentando ganhar qualquer coisinha.
Quando junto ao semáforo te aproximas de cada carro pedindo uma moeda
Ó criança,
Ergue a cabeça
Ergue a cabeça e grite bem alto pelos teus direitos
Grite e lute com todas as armas e forças, pois,
Criança! Tu és o nosso amanhã
O País conta contigo amanhã.


Fátima Langa


Biografia AQUIAQUI

sábado, 18 de maio de 2024

SÓNIA SULTUANE - CHOREI OS HOMENS






 Chorei os homens,

mas nenhum, as minhas lágrimas viu,
nenhum as viu correr dentro de mim,
chorei os homens,
com lágrimas já tão cansadas, esperei...enfim...,
que algum as visse e as pudesse secar,
que algum as pudesse ouvir,
ouvir somente dizer que foi por amor,
que chorei lágrimas doídas


Sónia Sultuane
Moçambique


Biografia:

Nota: Amigos, só agora vi que embora continue em pausa, ainda saíram duas postagens dando ideia de que estava de volta. Não aconteceu, as postagens saíram porque estavam agendadas. Pensava regressar ao vosso convívio este mês mas uma virose, seguida de uma gastrite e uma infeção urinária não me têm dado descanso. Voltarei para em Junho, se entretanto recuperar a saúde.