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domingo, 1 de novembro de 2015

LICÍNIA QUITÉRIO





Naquela hora


Naquela hora todas as portas
se abriram e o teu corpo ganhou
o tamanho das palavras
que não quiseste dizer.
Havia o cheiro a alecrim e incenso
das procissões nos caminhos serranos.
Ouviram-se sinos nos campanários
distantes de aldeias distantes
em mapas ainda mais distantes.
Veio o cipreste e afirmou
ser irmão doutro lugar ao norte.
Era uma árvore perdida a reclamar
asilo como acontece nas histórias.
Nas vidraças podia ler-se o desenho
branco das máscaras de Veneza.
Se não fosse inconcebível,
um barco subiria as escadas
e tu, ainda de pé, com um menino
ao colo, embarcarias, sorrindo,
murmurando um cante do país ao sul.
Noutra hora, todas as portas voltaram
a fechar-se. 





Biografia.

Licínia Quitério, nasceu em Mafra, em 30 de Janeiro de 1940.
Foi professora, tradutora, correspondente comercial.
Tem vários livros publicados, em prosa e poesia. 
A autora tem ainda dois blogues. Aqui encontram um deles, o outro lá mesmo encontram o endereço.
Passem por lá, e vão ver que não se arrependem

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

VÓLIA LOUREIRO, DE AMARAL LIMA








FADO DE UM NAVEGANTE

Ah meu Portugal!
Tão distante de ti agora,
Vagueia a minha nau,
Perdida nos mares de calmaria!

Se antes navegava incontinenti,
Havia a certeza de um porto a voltar,
Hoje, apenas navego.
E teu porto está longe, longe...
Não tenho mares para retornar.

Ah meu Portugal!
Nem o céu sobre nós é mais o mesmo.
Tão distante de mim estão minhas estrelas,
Que à noite, as que vejo, estranhas me parecem,
São apenas frios luzeiros, que a minh'alma não aquecem.

Ah meu Portugal!
Já não escuto mais o teu fado,
E a poesia de mim se apartou,
Restou apenas, esse lamento cantado
A contar o que já foi um grande amor.

Hoje navego, por navegar apenas,
Deixo-me levar, pelas ondas pequenas,
Em mares calmos ou de procelas,
Sem mapas, estrelas, sem vela e nem fados.
Navego assim, com enfado,
Sentindo-me  expatriado,
Por ver-me livre das tuas cadenas.


in Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho da Chiado Editora
Edição 2015




Biografia

Vólia Loureiro de Amaral Lima, ou  Vólia Loureiro, é brasileira, paraibana, engenheira civil,  É poetisa e romancista, e artista plástica. Publicou "Aos Que Ainda Sonham" em poesia e "Onde as paralelas se encontram" romance. A autora tem um  blog que poderão visitar aqui



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

DOMITÍLLA DE CARVALHO


À beira- mar

É tarde. O sol poente esparge em sua estrada
                    Uns laivos purpurinos.
Ouve-se, muito longe, a plangente toada
                    Da musica dos sinos.

As ondas de esmeralda, arfando – a uma e uma  
                   Vêm na praia expirar.
Envolve-as de branco o manto seu de espuma,
                   De flocos de luar.

Em breve a meiga lua, e o fulgido cortejo
                   De estrelas pequeninas,
Surgirão a inundar n’um luminoso beijo
                   As águas cristalinas.

A vaga a marulhar repete docemente
                   Algum segredo ouvido…
Sinto que ela me diz, em sua voz dolente,
                   Um nome estremecido,

Quando o sol já se oculta e deixa em sua estrada
                   Uns laivos purpurinos,
E se ouve, lá ao longe, a plangente toada
                   Da musica dos sinos.




DOMITÍLLA DE CARVALHO




Biografia
Muito inteligente,  a poetisa impôs-se num mundo que era apenas de homens. Não esquecer que Domitila nasceu em 1871. Foi a primeira mulher a formar-se em Portugal. Corria o ano de 1894, quando com apenas 23 anos Domitilla se formou em Matemática na Universidade de Coimbra. Mas não se ficou por aqui. Um ano depois formava-se em Filosofia, e em 1904 forma-se em Medicina, numa altura em que existiam apenas 5 mulheres em Portugal a frequentar a universidade. AQUI
a biografia completa da poetisa.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

MARIA AUGUSTA RIBEIRO

                                      Foto do jornal Expresso


Sem abrigo

Ficou ali
Debaixo de uma escada
Tirou dos sacos uma manta usada
Que estendeu no chão
Fez um ninho de cão
Com palha e farrapada
Cobriu-se com jornais
(Que até falavam dele
E outros tais
Pois cada vez há mais!)
Fez um docel
Com uma velha pele
Rafada
Encomendou-se ao Nada
E dormiu

A cidade, passando açodada
Não via nada
E a familia
Fingia que não o conhecia…

Ali ficou até anoitecer
Viriam as senhoras a oferecer
Sopinha quente e uma maçã
Só para confortar

E ele irá guardar
Em cada mão
Um pão
Para comer de manhã
Se acordar…
Maria Augusta Ribeiro

Biografia
Maria Augusta Ribeiro, é uma poetisa de Mirandela.  Tem quatro livros publicados e participações em antologias de poesia, como a de poesia contemporânea, "ENTRE O SONO E O SONHO" deste ano. Tem um blogue AQUI


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