sexta-feira, 9 de maio de 2014
MAIS UMA PARTICIPAÇÃO MINHA, NUMA ANTOLOGIA DE POESIA
Na página 253 este poema.
O meu olhar é… mágico
O meu olhar é mágico.
Ele é o portal de entrada na vida que me rodeia.
É a borboleta que dança inebriada
Sobre um canteiro florido.
Ele é a alegria esfuziante da criança,
Que brinca
Sob o atento olhar da mãe, que sonha
Para ela um futuro radioso.
Ele é o Amor latente nos jovens
Que trocam beijos num banco de jardim.
O meu olhar é mágico
Ele é a lágrima escondida na solidão dos idosos
A quem o desemprego levou
Os filhos na mala da emigração.
É a dor sem tamanho daquela mãe
A quem um acidente brutal roubou
A luz dos seus olhos.
Ele é o mar que no horizonte
Se funde no espaço celeste.
Ele é a nuvem que passa
O vento que verga as árvores
E o sol que a todos afaga.
O meu olhar é mágico
Porque ele é o portal das emoções
Que compõem a Sinfonia da Vida.
Maria Elvira Carvalho.
sábado, 26 de abril de 2014
INÊS LOURENÇO
foto daqui
Rua de Camões
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Inês Lourenço, in 'Cicatriz 100%'
Biografia
AQUI
pode encontrar não só a biografia da autora como vários dos seus poemas.
domingo, 30 de março de 2014
GRAÇA PIRES
As Palavras Pesam
As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afetivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.
De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.
Graça Pires, in Poemas Escolhidos
Biografia
Graça Pires nasceu na Figueira da Foz a 22 de Novembro de 1946. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mais informações AQUI
domingo, 23 de março de 2014
MARIA JUDITE DE CARVALHO
As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
Maria Judite de Carvalho
Biografia AQUI
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