Outros Natais
Onde a magia dos
Natais de outrora
O presépio dos olhos
da infância
São José, a Virgem, o
Menino
Figuras modeladas
Quase gente
A mostrar-se ao
espanto
Dos pastores que
vinham
Em fila pelo musgo dos
caminhos
Para ofertar cordeiros
e presentes.
Onde a azáfama do
rumor das mãos
Nos alguidares de
barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o
fermento
Tomavam forma e gosto
tão distantes.
Aonde o sono arredio
que não vinha
Nessa Noite Sagrada em
que os pinheiros
Choram saudades de
bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes
e de enfeites.
Onde o mistério que
seguia os passos
Dos adultos no ranger
das tábuas
Em nossos passos
furtivos de criança
Na ânsia de encontrar
em qualquer canto
De barbas e de saco o
Pai Natal.
Quantos Natais assim
em que a Família
Se reunia inteira à
grande mesa
Da sala de jantar tão
velha e gasta
Mas que nessa noite
por magia
Transformava em
cristal os vidros baços.
Quantos presépios
retidos na memória
Quantos aromas ainda a
Consoada
Quantos sons a deixar
nos meus ouvidos
Os risos, os beijos,
os abraços.
Quantas imagens
cingidas na penumbra
Desta lembrança que se
fez saudade
Dos rostos, dos
gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e
da Casa.
Noite Divina em que
torno a ser criança
Ante o meu olhar
adulto e me desperto
Na emoção que nos traz
os anos:
O meu Natal é hoje
mais concreto
Mas muito menos
belo e mais deserto.
Soledade Martinho Costa
